sexta-feira, 28 de junho de 2013

Um desenho no céu!

 


É difícil não pensar na morte quando a vimos diante de nós, a sentimos e lhe tocamos. Tenho por hábito tocar-lhe. Gosto de tocar em tudo, sentir as coisas nas mãos, até a morte!
Mais uma vez lhe toquei. Não me assusta, pelo contrário, tranquiliza-me, acalma-me, talvez porque a respeito tanto.
Há dias toquei-lhe, ainda viva, com os dois beijinhos habituais. Cheirava a cigarros, como sempre!
Falávamos sempre do mesmo. Encostadas à parede da casa cor de rosa permanecíamos algum tempo a discutir os problemas atuais, sobretudo a doença que afetou o país e a angústia da falta de emprego.
Era perita em animar as pessoas, dirigindo sempre palavras de alento e de esperança. Ouvia-a sempre com atenção e queria acreditar no que dizia.
Recordo-me do início deste percurso, o percurso de quem fica sem emprego. Como tantos, fui obrigada a ter que me dirigir quinzenalmente à minha Junta de Freguesia com a finalidade de dizer Estou aqui, estou viva! Sou merecedora do meu subsídio de desemprego. Quando tudo começou, achava esta rotina um aborrecimento, para não dizer outra coisa. Era uma verdadeira chatice aquela obrigação, aquele dever... Mas tinha e tem que ser!
Certo é, que, com o passar do tempo, comecei a gostar de ir. A simpatia das duas senhoras que lá trabalham, que tão bem me recebem e tratam, agrada-me, sem falar das palavras amigas e da força que ouvia e sentia da Senhora Presidente.
A minha filha, por vezes, ia comigo e gostava de sentar-se na sua gigante cadeira.
Uma vez, rodeada das bandeiras, chegou até dizer: "Um dia, também quero ser presidente da Junta de Freguesia!" Foi uma risada!
Na parede, a imagem do Presidente da República chegou a ser confundida com a imagem do avô Salvador.
- Senhora Presidente, porque está ali a fotografia do meu avô?
- Aquele senhor é o teu avô?!
Olhou com mais atenção e reparou que não era.
- Pois, não é... Então quem é? Questionou.
- É o Presidente da República! Explicou-lhe...
- É um senhor importante?
- É... Muito! É o "chefe" do nosso país.
- Ahhhh...
Curiosa como sempre, quis também conhecer as bandeiras e os seus significados! Conheceu a bandeira de Portugal, da cidade de Coimbra e da Freguesia de Eiras.
Dias depois, quando tive que me apresentar na "visita" quinzenal, a Maria Leonor encomendou-me uma tarefa: entregar um desenho à senhora presidente. Ficou feliz, claro, e colocou-o na sua sala, em exposição, junto ao seu vasto espólio.
Dia 25 de Junho, ao entardecer, recebi a triste notícia: Filomena dos Santos tinha falecido nesse dia.
Chamei a minha filha e contei-lhe que a sua amiga, a presidente da junta, tinha ido para o céu. A reação foi inesperada: um sorriso enorme, um brilho nos olhos e da sua pequenina boca saiu a seguinte frase: "Que bom, mamã! Agora, a avó Aninhas vai ter mais uma amiga para brincar"!
Recolheu-se. Fui ver onde estava. De joelhos numa mesa pequenina estava a fazer um desenho. Representou uma menina entre flores e um sol gigante e escreveu o seu nome duas vezes. Deu-me o desenho e disse: Entregas à senhora presidente?
Respondi que sim, claro que sim! Aquele desenho iria chegar até ela.
De manhã cedo, depois de a deixar na escola, fui comprar uma flor, branca, gosto de flores brancas.
Coincidência ou não, era dia de me apresentar na Junta de Freguesia, dia de dizer, Estou aqui, estou viva! Fui. A sala estava escura, a cadeira gigante vazia e o retrato do Presidente da República sem luz. Sempre com o desenho na mão, não sabia que destino lhe dar. Pensei em deixá-lo na sua secretária, na esperança de algum familiar pudesse ficar com ele. Não, pensei melhor. Carimbei o meu papel e dirigi-me à capela. Chego, apenas duas pessoas idosas, deviam ser dois habitantes da terra. Em seu redor não havia, ainda, flores, era cedo. Com o desenho na mão e a flor na outra não sabia onde os deixar. Decidi, então, colocar a seus pés o lindo desenho da Leonor acompanhado da minha flor. E para que ela não se esquecesse, tirei da minha carteira uma caneta para escrever no desenho a frase que um dia lhe provocou uma gargalhada: Um dia, também, serei presidente da Junta de Freguesia.
O desenho foi com ela, a seus pés.
Sorri para ela, outro hábito meu. Sorrir sempre para quem parte!
Mas a história não acaba aqui
À noite, a Leonor espera o avô Salvador, como quase todos os dias. Entre as suas conversas ela segreda-lhe:
- Sabes, vovô, o meu desenho já chegou ao céu!
Até sempre, Filomena.


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