É difícil não pensar na morte quando a
vimos diante de nós, a sentimos e lhe tocamos.
Tenho por hábito tocar-lhe. Gosto de tocar
em tudo, sentir as coisas nas mãos, até a morte!
Mais uma
vez lhe toquei. Não me assusta, pelo contrário, tranquiliza-me, acalma-me, talvez porque a respeito
tanto.
Há dias toquei-lhe, ainda viva, com os dois beijinhos
habituais. Cheirava a cigarros, como sempre!
Falávamos sempre do mesmo. Encostadas à parede da casa cor de rosa permanecíamos algum tempo a discutir os problemas atuais, sobretudo
a “doença” que afetou o país e a angústia da falta de emprego.
Era
perita em animar as pessoas, dirigindo sempre palavras de alento e de esperança. Ouvia-a sempre com atenção e queria acreditar no que
dizia.
Recordo-me
do início deste percurso, o percurso
de quem fica sem emprego. Como tantos, fui obrigada a ter que me dirigir
quinzenalmente à minha Junta de Freguesia com
a finalidade de dizer “Estou aqui, estou viva! Sou
merecedora do meu subsídio de desemprego”. Quando tudo começou, achava esta rotina um
aborrecimento, para não dizer outra coisa. Era uma
verdadeira chatice aquela obrigação, aquele dever... Mas tinha e
tem que ser!
Certo é, que, com o passar do tempo, comecei a gostar de ir. A
simpatia das duas senhoras que lá trabalham, que tão bem me recebem e tratam, agrada-me, sem falar das
palavras amigas e da força que ouvia e sentia da
Senhora Presidente.
A minha
filha, por vezes, ia comigo e gostava de sentar-se na sua gigante cadeira.
Uma vez,
rodeada das bandeiras, chegou até dizer: "Um dia, também quero ser presidente da Junta de Freguesia!" Foi uma
risada!
Na
parede, a imagem do Presidente da República chegou a ser confundida
com a imagem do avô Salvador.
- Senhora
Presidente, porque está ali a fotografia do meu avô?
- Aquele
senhor é o teu avô?!
Olhou com
mais atenção e reparou que não era.
- Pois, não é... Então quem é? Questionou.
- É o Presidente da República! Explicou-lhe...
- É um senhor importante?
- É... Muito! É o "chefe" do nosso
país.
-
Ahhhh...
Curiosa
como sempre, quis também conhecer as bandeiras e os
seus significados! Conheceu a bandeira de Portugal, da cidade de Coimbra e da
Freguesia de Eiras.
Dias
depois, quando tive que me apresentar na "visita" quinzenal, a Maria
Leonor encomendou-me uma tarefa: entregar um desenho à senhora presidente. Ficou feliz, claro, e colocou-o na sua
sala, em exposição, junto ao seu vasto espólio.
Dia 25 de
Junho, ao entardecer, recebi a triste notícia: Filomena dos Santos tinha
falecido nesse dia.
Chamei a
minha filha e contei-lhe que a sua amiga, a presidente da junta, tinha ido para
o céu. A reação foi inesperada: um sorriso enorme, um brilho nos olhos e
da sua pequenina boca saiu a seguinte frase: "Que bom, mamã! Agora, a avó Aninhas vai ter mais uma
amiga para brincar"!
Recolheu-se.
Fui ver onde estava. De joelhos numa mesa pequenina estava a fazer um desenho.
Representou uma menina entre flores e um sol gigante e escreveu o seu nome duas
vezes. Deu-me o desenho e disse: “Entregas à senhora presidente?”
Respondi
que sim, claro que sim! Aquele desenho iria chegar até ela.
De manhã cedo, depois de a deixar na escola, fui comprar uma flor,
branca, gosto de flores brancas.
Coincidência ou não, era dia de me apresentar na
Junta de Freguesia, dia de dizer, “Estou aqui, estou viva!” Fui. A sala estava escura, a cadeira gigante vazia e o
retrato do Presidente da República sem luz. Sempre com o
desenho na mão, não sabia que destino lhe dar. Pensei em deixá-lo na sua secretária, na esperança de algum familiar pudesse ficar com ele. Não, pensei melhor. Carimbei o meu papel e dirigi-me à capela. Chego, apenas duas pessoas idosas, deviam ser dois
habitantes da terra. Em seu redor não havia, ainda, flores, era
cedo. Com o desenho na mão e a flor na outra não sabia onde os deixar. Decidi, então, colocar a seus pés o lindo desenho da Leonor
acompanhado da minha flor. E para que ela não se esquecesse, tirei da
minha carteira uma caneta para escrever no desenho a frase que um dia lhe
provocou uma gargalhada: “Um dia, também, serei presidente da Junta de Freguesia”.
O desenho
foi com ela, a seus pés.
Sorri
para ela, outro hábito meu. Sorrir sempre para
quem parte!
Mas a
história não acaba aqui…
À noite, a Leonor espera o avô Salvador, como quase todos os dias. Entre as suas
conversas ela segreda-lhe:
- Sabes,
vovô, o meu desenho já chegou ao céu!
Até sempre, Filomena.

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