Ontem, fui visitá-la e lá
estava ela, deitada como se estivesse num quarto de hotel, estimada e bem
tratada, sorridente... Parecia que estava tudo bem.
Lembra-se de muitas
coisas mas não as liga à realidade, ao presente, guarda na lembrança apenas
nomes e pessoas que lhe são mais próximas mas tem dificuldade em as
identificar.
Com um enorme sorriso,
chamou-nos marotas, brincalhonas, minhas queridas e lindas. Gosta de elogiar o
próximo, lembro-me dela sempre assim.
Enquanto conversava e fantasiava repetia no final de cada frase: “são meigos, carinhosos…”
A certa altura já
provocava risadas entre nós, porque tudo era meigo, querido e carinhoso, até a sua
própria casa.
Hoje, voltei lá e passei a
tarde a conversar com ela e com uma prima.
Falou, falou, falou...
Durante a longa tarde dei
comigo a pensar em muitas coisas, sobretudo, quando ela me olhava fixamente e se
esforçava para saber quem eu era e não conseguia. Eu dava uma ajuda e feliz
da vida lá dizia o meu nome a sorrir!
A minha prima que é
psicóloga ia utilizando alguns termos técnicos para justificar as suas falhas
de memória e as repetidas palavras, eu ia ouvindo, uma e outra e a mim própria.
Não sei qual das três falava mais, mas o meu silêncio não me deu descanso, por
vezes nem as ouvia, só a célebre frase: “são meigos, carinhosos…”
Cheguei à conclusão que
não precisamos de grandes estudos para entender ou perceber a complexidade do
ser humano, se realmente existe essa complexidade.
Tenho percebido que o ser
humano não exige muito, nós é que pensamos que sim. Não são os bens materiais que
fazem de nós pessoas melhores e mais alegres, mais realizadas e
preenchidas. O dinheiro? Também não, de
todo.
O ser humano precisa de
estar rodeado de meiguice, de carinho, de afeto e de atenção. Estes
ingredientes são mágicos e fundamentais
para sermos felizes, desde que nascemos, durante o nosso percurso de vida até
ao leito da morte.
A família é uma dádiva, é
a maior riqueza que podemos ter e para quem tem a sorte de ter um filho, a dimensão da riqueza nem se
consegue medir, apenas sentir. Hoje, tive estas certezas todas, pois ouvi vezes
sem conta a minha avó falar descoordenadamente sobre estes valores: família e
carinho.
Todas as suas conversas
têm o mesmo rumo, o mesmo desfecho: o filho, sempre o filho, em primeiro, o
Manel, os netos, a nora, a mãe, e por aí fora...
Anda bem disposta, sempre
com sorriso para oferecer a quem a visita, a quem trata dela, a quem lhe dá a
merecida atenção.
Os seus olhos pequeninos
tornam-se a cada dia mais meigos e carinhosos, por todos os motivos.
Ela, como todos nós só
anseia pelo carinho, porque não dar? Ela ainda o sente e eu também...
2012

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