sexta-feira, 28 de junho de 2013

São meigos, carinhosos…







Ontem, fui visitá-la e lá estava ela, deitada como se estivesse num quarto de hotel, estimada e bem tratada, sorridente... Parecia que estava tudo bem.

Lembra-se de muitas coisas mas não as liga à realidade, ao presente, guarda na lembrança apenas nomes e pessoas que lhe são mais próximas mas tem dificuldade em as identificar.

Com um enorme sorriso, chamou-nos marotas, brincalhonas, minhas queridas e lindas. Gosta de elogiar o próximo, lembro-me dela sempre assim.

Enquanto conversava e fantasiava repetia no final de cada frase: “são meigos, carinhosos…”

A certa altura já provocava risadas entre nós, porque tudo era meigo, querido e carinhoso, até a sua própria casa.

Hoje, voltei lá e passei a tarde a conversar com ela e com uma prima.

Falou, falou, falou...

Durante a longa tarde dei comigo a pensar em muitas coisas, sobretudo, quando ela me olhava fixamente e se esforçava para saber quem eu era e não conseguia. Eu dava uma ajuda e feliz da vida lá dizia o meu nome a sorrir!

A minha prima que é psicóloga ia utilizando alguns termos técnicos para justificar as suas falhas de memória e as repetidas palavras, eu ia ouvindo, uma e outra e a mim própria. Não sei qual das três falava mais, mas o meu silêncio não me deu descanso, por vezes nem as ouvia, só a célebre frase: “são meigos, carinhosos…”

Cheguei à conclusão que não precisamos de grandes estudos para entender ou perceber a complexidade do ser humano, se realmente existe essa complexidade.

Tenho percebido que o ser humano não exige muito, nós é que pensamos que sim. Não são os bens materiais que fazem de nós pessoas melhores e mais alegres, mais realizadas e preenchidas. O dinheiro? Também não, de todo.

O ser humano precisa de estar rodeado de meiguice, de carinho, de afeto e de atenção. Estes ingredientes  são mágicos e fundamentais para sermos felizes, desde que nascemos, durante o nosso percurso de vida até ao leito da morte.

A família é uma dádiva, é a maior riqueza que podemos ter e para quem tem a sorte de  ter um filho, a dimensão da riqueza nem se consegue medir, apenas sentir. Hoje, tive estas certezas todas, pois ouvi vezes sem conta a minha avó falar descoordenadamente sobre estes valores: família e carinho.

Todas as suas conversas têm o mesmo rumo, o mesmo desfecho: o filho, sempre o filho, em primeiro, o Manel, os netos, a nora, a mãe, e por aí fora...

Anda bem disposta, sempre com sorriso para oferecer a quem a visita, a quem trata dela, a quem lhe dá a merecida atenção.

Os seus olhos pequeninos tornam-se a cada dia mais meigos e carinhosos, por todos os motivos.

Ela, como todos nós só anseia pelo carinho, porque não dar? Ela ainda o sente e eu também...


2012

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