sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dança, dança com alegria!








Vovô! Sim. Toma. O quê? Este desenho. Muito obrigado, és uma bela menina. É para tu escreveres uma história. Pode ser? Escreves uma historiazinha para mim?

Um pedido, inusitado, da minha neta de oito anos. Habitualmente costuma ser ao contrário. Primeiro escreve-se, depois é que se ilustra, mas a minha neta inverteu a ordem, e eu respeito. Espero que seja do seu agrado e que continue pela vida fora a interessar-se pela arte, pela escrita, pela cultura, porque só assim conseguirá saborear com satisfação a sua existência.



Era muito pequenina. Um dia começou a movimentar o seu corpo de forma estranha. Sentia-se leve, como se não tivesse peso, flutuando ao sabor do vento, e um calor agradável, como se o sol tivesse despertado dentro de si, aquecia-lhe algo que só mais tarde soube que era a sua alma. Aprendeu que estava a dançar. Gostou tanto que quis ser bailarina. Mas não tinha a saia adequada para poder voltear nos bicos dos pés, de abraços abertos com vontade de agarrar o mundo à sua volta. Quem gostava dos volteios, daquela alegria, da leveza de um corpo animado por uma alma quase feliz, era o sol. Todos os dias, o sol, quando despertava, sorria preguiçosamente lançando raios matinais de uma cor que seduzia os olhinhos da menina. Era esta a cor que eu queria para a minha saia de ballet, dizia para si a menina. A mãe conseguiu-lhe arranjar um tecido velho cheio de rendinhas, suave, baço, solto, mas descorado pelo tempo. Não tinha posses para mais. Foi numa velha arca que encontrou o resto de um vestido. Não sabe a quem terá pertencido. A uma bailarina? 
A menina começou a vestir a saia feita do velho tecido, branco, talvez tivesse sido prateado, mas agora estava baço e amarelado. O que ela queria era uma saia nova, brilhante, da cor dos raios de sol quando este acorda ainda meio dorminhoco. O seu desejo era tão grande que passou a sonhar com a sua bela saia, brilhante como os raios de sol de uma manhã de primavera. Que alegria. Uma alegria que só ocorria durante o sono. De dia, tinha de se contentar com o que tinha. Muitas pessoas começaram a ouvir que havia uma estranha bailarina que dançava para o sol. Todos queriam vê-la, mas não sabiam onde procurar.
Um dia, estava a menina a dançar de manhã, quando o sol, que gostava imenso de a ver assim que acordava lhe disse: - Sabes, esta noite não dormi fiquei acordado dentro do teu sonho. Eu sei o que tu queres. A menina não percebeu bem o que é que o sol queria dizer, quando, subitamente, raios avermelhados se projetaram sobre si e a sua saia ficou brilhante, muito brilhante e da cor do sol quando acorda. Ficou tão feliz que dançou, dançou como nunca tinha dançado e o sol ficou muito feliz por a ver dançar daquela maneira. As pessoas olharam para o sol e viram que do dourado do sol saíam raios diferentes tão belos, róseos, que incidiam num determinado ponto da floresta. Dirigiram-se para lá e ficaram deslumbrados com tão belo espetáculo. Uma menina de olhos negros   e cabelos de ouro, que vestia uma saia feita de raios do sol, alaranjados, róseos, avermelhados, dançava como se fosse feita de vento. Um grande Ah! de espanto libertou-se daquelas gargantas ecoando pelo mundo. Convenceram-se de que era a menina que lançava ao sol raios de felicidade. Afinal, pensaram, o sol também precisa de se alimentar dos raios de felicidade de uma menina que adora dançar, porque a dança é a manifestação de alegria de uma alma feliz. Desde então, sempre que de manhãzinha se levantam para ir trabalhar, e veem os raios róseos no céu, sabem que é a menina, que dança alegremente na floresta, a enviá-los ao seu amigo, o dorminhoco do sol. 
O sol precisa, ao acordar, de alegria para que possa por sua vez nos alegrar durante o dia.
Dança, dança com alegria, o sol agradece e nós também.

Um desenho no céu!

 


É difícil não pensar na morte quando a vimos diante de nós, a sentimos e lhe tocamos. Tenho por hábito tocar-lhe. Gosto de tocar em tudo, sentir as coisas nas mãos, até a morte!
Mais uma vez lhe toquei. Não me assusta, pelo contrário, tranquiliza-me, acalma-me, talvez porque a respeito tanto.
Há dias toquei-lhe, ainda viva, com os dois beijinhos habituais. Cheirava a cigarros, como sempre!
Falávamos sempre do mesmo. Encostadas à parede da casa cor de rosa permanecíamos algum tempo a discutir os problemas atuais, sobretudo a doença que afetou o país e a angústia da falta de emprego.
Era perita em animar as pessoas, dirigindo sempre palavras de alento e de esperança. Ouvia-a sempre com atenção e queria acreditar no que dizia.
Recordo-me do início deste percurso, o percurso de quem fica sem emprego. Como tantos, fui obrigada a ter que me dirigir quinzenalmente à minha Junta de Freguesia com a finalidade de dizer Estou aqui, estou viva! Sou merecedora do meu subsídio de desemprego. Quando tudo começou, achava esta rotina um aborrecimento, para não dizer outra coisa. Era uma verdadeira chatice aquela obrigação, aquele dever... Mas tinha e tem que ser!
Certo é, que, com o passar do tempo, comecei a gostar de ir. A simpatia das duas senhoras que lá trabalham, que tão bem me recebem e tratam, agrada-me, sem falar das palavras amigas e da força que ouvia e sentia da Senhora Presidente.
A minha filha, por vezes, ia comigo e gostava de sentar-se na sua gigante cadeira.
Uma vez, rodeada das bandeiras, chegou até dizer: "Um dia, também quero ser presidente da Junta de Freguesia!" Foi uma risada!
Na parede, a imagem do Presidente da República chegou a ser confundida com a imagem do avô Salvador.
- Senhora Presidente, porque está ali a fotografia do meu avô?
- Aquele senhor é o teu avô?!
Olhou com mais atenção e reparou que não era.
- Pois, não é... Então quem é? Questionou.
- É o Presidente da República! Explicou-lhe...
- É um senhor importante?
- É... Muito! É o "chefe" do nosso país.
- Ahhhh...
Curiosa como sempre, quis também conhecer as bandeiras e os seus significados! Conheceu a bandeira de Portugal, da cidade de Coimbra e da Freguesia de Eiras.
Dias depois, quando tive que me apresentar na "visita" quinzenal, a Maria Leonor encomendou-me uma tarefa: entregar um desenho à senhora presidente. Ficou feliz, claro, e colocou-o na sua sala, em exposição, junto ao seu vasto espólio.
Dia 25 de Junho, ao entardecer, recebi a triste notícia: Filomena dos Santos tinha falecido nesse dia.
Chamei a minha filha e contei-lhe que a sua amiga, a presidente da junta, tinha ido para o céu. A reação foi inesperada: um sorriso enorme, um brilho nos olhos e da sua pequenina boca saiu a seguinte frase: "Que bom, mamã! Agora, a avó Aninhas vai ter mais uma amiga para brincar"!
Recolheu-se. Fui ver onde estava. De joelhos numa mesa pequenina estava a fazer um desenho. Representou uma menina entre flores e um sol gigante e escreveu o seu nome duas vezes. Deu-me o desenho e disse: Entregas à senhora presidente?
Respondi que sim, claro que sim! Aquele desenho iria chegar até ela.
De manhã cedo, depois de a deixar na escola, fui comprar uma flor, branca, gosto de flores brancas.
Coincidência ou não, era dia de me apresentar na Junta de Freguesia, dia de dizer, Estou aqui, estou viva! Fui. A sala estava escura, a cadeira gigante vazia e o retrato do Presidente da República sem luz. Sempre com o desenho na mão, não sabia que destino lhe dar. Pensei em deixá-lo na sua secretária, na esperança de algum familiar pudesse ficar com ele. Não, pensei melhor. Carimbei o meu papel e dirigi-me à capela. Chego, apenas duas pessoas idosas, deviam ser dois habitantes da terra. Em seu redor não havia, ainda, flores, era cedo. Com o desenho na mão e a flor na outra não sabia onde os deixar. Decidi, então, colocar a seus pés o lindo desenho da Leonor acompanhado da minha flor. E para que ela não se esquecesse, tirei da minha carteira uma caneta para escrever no desenho a frase que um dia lhe provocou uma gargalhada: Um dia, também, serei presidente da Junta de Freguesia.
O desenho foi com ela, a seus pés.
Sorri para ela, outro hábito meu. Sorrir sempre para quem parte!
Mas a história não acaba aqui
À noite, a Leonor espera o avô Salvador, como quase todos os dias. Entre as suas conversas ela segreda-lhe:
- Sabes, vovô, o meu desenho já chegou ao céu!
Até sempre, Filomena.


"Mactérias"

É bom estar atento aos miúdos, porque quando menos se espera aprende-se alguma coisa, pelo menos ficamos a saber, ou a imaginar, como funcionam aqueles pequenos cérebros ávidos em compreender o mundo que os cerca. 
O primo, um ano mais velho, sofre de cárie. Uma situação muito comum nestas idades. Apesar dos cuidados de higiene oral não conseguiu evitá-la. Tomara! É uma criança como qualquer outra, gosta de se alambazar com produtos altamente cariógenos, o que pode ter consequências, por vezes dolorosas, como foi o caso desta semana. Antes, já tinha sido sujeito a tentativas de tratamento, mas, como estávamos à espera, opôs-se com determinação, ou seja, com medo, comportamento típico nestas idades, embora as condições atuais não tenham nada a ver com os dignos representantes dos "dentistas-barbeiros" que, no meu tempo de criança, revelavam ainda resquícios de aspirantes a torturadores da Santa Inquisição.
As conversas sobre este tema, cárie, doces, chocolates, lavagem e escovagem dos dentes são uma constante lá em casa, escutadas ou não pelos protagonistas infantis. Mas devem ser ouvidas, porque se não fossem não teria assistido e tido conhecimento das conversas da mais nova. Face às dores do primo, e ao conhecimento do seu comportamento em recusar o tratamento de dois "buracos", a menina acabou por entabular uma conversa com a mãe, dando provas do seu interesse por este assunto.
"- Sabes o que são cáries, mamã?
- Hummm... Não. Conta-me lá!
- São "mactérias" que querem construir casinhas dentro dos dentes. Então, escavam, escavam, escavam e depois levam para lá a família toda!
- Ahhh... E cabem lá todas?
- Cabem, são todas amigas! Mas só que às vezes fazem doer a casa...
- Pois! É uma grande chatice..."
Hoje, face ao heroísmo e à aceitação por parte do primo em deixar-se tratar com sucesso, a conversa centrou-se no tema durante o almoço. A Leonor explicou-me o que eram as "mactérias", como é que elas entravam nos dentes e faziam a sua casinha para si e para os filhinhos e depois, quando começavam a ressonar, provocavam dores. 
- Como?! As "mactérias" ressonam?
- Sim. E depois fazem doer.
- E o que é que fazem, quando acordam? Não me digas que começam a pular, a correr e a brincar? Perguntei-lhe.
A miúda esboçou um largo sorriso de admiração, dançou na cadeira, revelando uma manifestação de gozo e de incredulidade, e lançou-me na cara, a rir que nem uma perdida:
- Oh, vovô, mas que pergunta tão "podícula"!
- O quê?!
- "Podícula", vovô! Mas tu não sabes de "mactérias"?
- Bom, um pouquinho.
- Ah. Está bem.
- E agora, o que é que vais fazer?
Com o dedo dá a indicação de esfregar os dentes e diz:
- Vou tirar as "mactérias". 
- Antes que escavem os teus dentinhos, não é?
- Pois. É que depois podem "ressonar" e "darem" dores.
- Muito bem Vai lavar os dentinhos.
Pelo menos fiquei a saber o que são "mactérias", bactérias más, que gostam de escavar os dentes para terem uma casinha e que ao ressonarem provocam dores. Esta do ressonar é que ainda não percebi bem. Mas por hoje chega. Espero nos próximos dias aprender um pouco mais. O pior é que o raio de um molar começou a doer-me. Será que tenho lá dentro "mactérias" a ressonar? Às tantas. Na próxima semana vou acordá-las e mandá-las embora, senão quem não vai ressonar sou eu...

Peixinho de olhos azuis...


Desenhos de João, Diogo, Adolfo e Sofia (Liga dos Pequeninos do Hospital Pediátrico de Coimbra. Projeto "Brincar no Hospital" | verão 2013)


A estreita ribeira de águas límpidas dava vida ao povoado, deixando-se passar vezes sem conta pelas pessoas que, no meio da ponte de pedra, paravam quase sempre para a olhar, mas sem pensar. Olhavam e viam pequenos cardumes de peixes pequeninos, brincalhões, muito traquinas, que se punham também a olhar para a ponte de pedra. O Horácio, quando passava a ponte, também olhava, mas pensava nos peixes. Como seria divertido se pudesse brincar com eles. O Horácio era um pescador, mas só pescava no extenso e profundo lago onde havia peixes grandes com olhos tristes. Ali, na ribeira não admitia nem nunca pensou em apanhá-los. Era um local sagrado.
Um dia Horácio viu um pequeno peixe diferente. Tinha olhos azuis. Os peixes não têm olhos azuis. Pensou. A partir daí começou a ver que os outros, que andavam sempre juntos, em correrias loucas, não deviam gostar dele, empurravam-no e maltratavam-no. O peixe de olhos lindos e azuis passou a andar sozinho e muito triste. Horácio não sabia o que fazer. Começou, também, a andar muito triste pela forma como os peixinhos, de quem gostava tanto, tratavam o irmão de olhos azuis. Foi então que um dia viu o cardume de peixes pequenos a rodear o solitário de olhos azuis. Depois empurraram-no para a queda de água e o peixe de olhos azuis foi obrigado a saltar para o degrau seguinte da escada da ribeira. Aqui, ao fim de pouco tempo, o cardume de peixinhos deste degrau fizeram-lhe o mesmo, empurraram-no para a queda de água seguinte. E de degrau em degrau da escadaria de águas frescas e límpidas, onde havia sempre um cardume de peixes pequenos, o peixe de olhos azuis acabou por cair no grande e profundo lago onde passou a viver e a crescer com saudades das águas límpidas e frescas da ribeira, onde queria morar. Preso no profundo e grande lago, pensava nos olhos do Horácio, olhos lindos, azuis celestes, olhos que gostaria de ter. 
Um dia olhou para cima e viu dois pequenos sóis azuis a brilhar através da água. Começou a subir para ver mais de perto o que eram aqueles belos pontos azuis que brilhavam tanto. Na subida passou ao lado de uma minhoca que estrebuchava na água. Como não tinha almoçado, pensou, estou com fome, e, sem hesitar, engoliu-a. Foi então que sentiu uma dor na garganta e começou a ser puxado com força para fora da água. Ficou muito assustado e pensou, vou morrer afogado no ar, nunca mais vejo o local onde nasci e onde sempre quis viver. O salto foi tão grande que, de repente, sentiu um aperto no corpo e viu duas belas safiras muito azuis à sua frente. Eram os olhos do Horácio. Horácio reconheceu os olhos azuis do peixe e ficou muito satisfeito. Com muito cuidado meteu-o num saco com água correndo encosta acima, sempre ao lado da ribeira, com os cardumes de peixes pequenos a quererem saber o que é que se passava. Quando chegou ao local onde tinha nascido, perto da ponte de pedra sobre a ribeira, colocou-o com muito cuidado nas águas límpidas e frescas. Todos os peixes pequenos, muito intrigados, correram para o local e abriram as bocas de espanto quando viram o peixe de olhos azuis. Estava tão grande que era capaz de os comer a todos de uma só vez. Juntaram-se ainda mais, tremeram de medo, e perguntaram-lhe se ia fazer-lhes mal. Não, não quero fazer mal a ninguém, só quero viver aqui e brincar convosco. Não nos fazes mal? Não! Querem ser meus amigos? Eu não deixo que vos façam mal. Horácio não sabia a língua dos peixes, mas compreendeu que algo de interessante se estaria a passar com eles. Quando o belo peixe de olhos azuis começou a nadar, os outros, pequeninos, puseram-se a seu lado em correrias loucas e muito felizes da vida. 
Hoje, há quem diga que é possível ver duas belas safiras de um azul celeste a brilhar na ribeira no meio dos cardumes de peixes pequeninos. Basta parar sobre a ponte de pedra, olhar para a ribeira e pensar como Horácio fazia através dos seus brilhantes e doces olhos azuis...

São meigos, carinhosos…







Ontem, fui visitá-la e lá estava ela, deitada como se estivesse num quarto de hotel, estimada e bem tratada, sorridente... Parecia que estava tudo bem.

Lembra-se de muitas coisas mas não as liga à realidade, ao presente, guarda na lembrança apenas nomes e pessoas que lhe são mais próximas mas tem dificuldade em as identificar.

Com um enorme sorriso, chamou-nos marotas, brincalhonas, minhas queridas e lindas. Gosta de elogiar o próximo, lembro-me dela sempre assim.

Enquanto conversava e fantasiava repetia no final de cada frase: “são meigos, carinhosos…”

A certa altura já provocava risadas entre nós, porque tudo era meigo, querido e carinhoso, até a sua própria casa.

Hoje, voltei lá e passei a tarde a conversar com ela e com uma prima.

Falou, falou, falou...

Durante a longa tarde dei comigo a pensar em muitas coisas, sobretudo, quando ela me olhava fixamente e se esforçava para saber quem eu era e não conseguia. Eu dava uma ajuda e feliz da vida lá dizia o meu nome a sorrir!

A minha prima que é psicóloga ia utilizando alguns termos técnicos para justificar as suas falhas de memória e as repetidas palavras, eu ia ouvindo, uma e outra e a mim própria. Não sei qual das três falava mais, mas o meu silêncio não me deu descanso, por vezes nem as ouvia, só a célebre frase: “são meigos, carinhosos…”

Cheguei à conclusão que não precisamos de grandes estudos para entender ou perceber a complexidade do ser humano, se realmente existe essa complexidade.

Tenho percebido que o ser humano não exige muito, nós é que pensamos que sim. Não são os bens materiais que fazem de nós pessoas melhores e mais alegres, mais realizadas e preenchidas. O dinheiro? Também não, de todo.

O ser humano precisa de estar rodeado de meiguice, de carinho, de afeto e de atenção. Estes ingredientes  são mágicos e fundamentais para sermos felizes, desde que nascemos, durante o nosso percurso de vida até ao leito da morte.

A família é uma dádiva, é a maior riqueza que podemos ter e para quem tem a sorte de  ter um filho, a dimensão da riqueza nem se consegue medir, apenas sentir. Hoje, tive estas certezas todas, pois ouvi vezes sem conta a minha avó falar descoordenadamente sobre estes valores: família e carinho.

Todas as suas conversas têm o mesmo rumo, o mesmo desfecho: o filho, sempre o filho, em primeiro, o Manel, os netos, a nora, a mãe, e por aí fora...

Anda bem disposta, sempre com sorriso para oferecer a quem a visita, a quem trata dela, a quem lhe dá a merecida atenção.

Os seus olhos pequeninos tornam-se a cada dia mais meigos e carinhosos, por todos os motivos.

Ela, como todos nós só anseia pelo carinho, porque não dar? Ela ainda o sente e eu também...


2012

Médica das letras...



Sexta-feira santa, chuvosa, triste, a convidar ao descanso merecido de lutas sem fim, de guerras perdidas, combatendo numa sociedade desestruturada, vazia de ideias, pérfida, idiota, capaz de capar o mais otimista. Acordo cedo. Um castigo imposto pelos dias de trabalho que desconhecem a existência dos feriados. Fiz um esforço adicional para prolongar o tempo de repouso. Soube-me a algo mais simbólico do que prático, mas deu para rememorar outras sextas-feiras santas, tantas, e todas cheias de histórias. Hoje, sexta-feira santa, colecionei mais uma. Gosto de as colecionar, gosto de as registar, gosto de as reler e de as dar a conhecer. Gosto de juntar "as palavras para ficarem boas e bonitas".
Toca o telefone. A voz, nova, doce, timbrada, eivada de encanto e de fantasia, cumprimenta-me com um bom-dia que nem o sol consegue nos dias de verão ao nascer.
- Bom-dia, meu amor.
- Vovô, tens que me ajudar, a mamã acordou com dores de cabeça e não se levanta para tomar o pequeno-almoço. Que é que eu faço? A preocupação era sentida e, no cenário de fundo, ouvia o riso divertido da mãe. Tive de lhe explicar o que é que a mamã deveria fazer, e à medida que ia debitando os meus conselhos divertia-me com os recados amorosos que ela retransmitia, como se fossem os meus ecos, mas mais divertidos e convincentes do que as minhas próprias palavras. Ficou tranquila, a ponto de mudar de conversa e perguntar-me:
- Vovô, queres que te conte umas histórias?
- Conta. Em seguida, demonstrando uma capacidade narrativa invulgar, cheia de tons coloridos, de comentários soberbos, de entoações vocais a lembrarem as ondas a baterem nas rochas ou a espraiarem-se nas areias, lançando risos de estupefação, debitou, mesmo sem conseguir perceber algumas frases, devido à emoção de quem conta com rapidez inexperiente e um aparelho vocal infantil, o relato de um vídeo com "Maique Jesse", que, pelos vistos, adora ver e ouvir e, até, imitar num inglês inexistente.
Uma delícia, confesso.
A mãe apercebeu-se que eu não tinha compreendido bem a história e, por isso, procedeu ao envio do vídeo que esteve na base da história que tentou contar-me. Fez-me gostar do mesmo, porque vi-o com outros olhos. Comentei em seguida que a miúda, apesar de ter quatro anos e três meses, três meses aos quatro anos é muito importante, daqui este preciosismo, é uma excelente narradora. Tem estilo, imaginação e é capaz de prender a atenção. Talvez com o tempo, quem sabe, possa ver o nascimento de uma escritora. Eu gostava. Ainda não sabe as letras, mas com o tempo... Comuniquei à mãe esta minha reflexão, terminando, vou estar atento.
O que é que a mãe fez? Foi-lhe dizer o que eu pensava, que poderia ser mais tarde uma escritora. Ouviu e respondeu:
- Olha, era uma boa ideia, mas gostava mais de ser médica das letras... A mãe, surpreendida com a resposta, perguntou-lhe o que era ser médica das letras.
- Humm... não sei bem, mas é tratar delas, juntar as palavras para ficarem boas e bonitas".
Nunca me tinha passado pela cabeça que ser médico das letras é tratar delas, juntar as palavras para ficarem boas e bonitas. Mas a miúda tem razão, as letras têm de ser bem tratadas, com carinho, com amor e serem transformadas em palavras bonitas. Que mais podemos desejar? Palavras bonitas ditas e contadas por uma criança que ainda não sabe desenhar palavras. Só espero que um dia consiga para meu prazer e de todos que as leiam.
E assim, a sexta-feira santa, chuvosa e triste, transformou-se num símbolo de vida, a convidar à ressurreição, graças a uma criança.
As crianças ensinam-nos. Só temos de estar atentos.


Salvador Massano Cardoso | 2013

Saber escrever...



Existem muitas pessoas que não sabem escrever, usar e conjugar as palavras escritas de forma agradável e harmoniosa, embora saibam falar, discursar e  transmitir oralmente os seus pensamentos e opiniões de forma exemplar.

Não existem modelos a seguir, no entanto noto, que, cada vez mais o ser humano quer à força ser “escritor”.

Sendo a escrita uma fonte de criação, de conhecimento, de memória e de interação social e cultural, deveria então ser tratada com mais respeito e cuidado. Por vezes deparo-me com textos que me fazem arrepiar... 
Confusos, sem interesse, ocos, palavras soltas, autenticas sopas de letras.

A comunicação escrita, como qualquer outra, depende de um contexto e de uma finalidade, por essa razão assumir características tão peculiares.

Há textos e textos, há pessoas e pessoas, cada um com o seu estilo, a sua forma e a sua “fisionomia”.

Alguns escrevem mais e melhor que outros, uns mais poéticos, outros mais pragmáticos, alguns tipicamente “barrocos”,  outros irónicos, enfim, urge a necessidade de competição. É muito importante dominar o código da escrita, não apenas desenhar letras, nem copiar o modo de escrever do outro, mas sim produzir textos, orais e escritos, que digam algo, que sejam genuínos (de preferência), que tenham essência, que sejam ricos, em simbolismos, metáforas, pensamentos, informações...

Um texto, tal como quem o escreve, também tem que ter alma e, todo aquele que o conseguir fazer é indiscutivelmente um bom escritor.



Inê Massano | 2012

A Senhora Morte




Foi preciso Ela morrer para eu deixar de temer a morte.
Hoje, vi, senti e compreendi a Senhora Morte. Chamo-lhe “Senhora”, porque a achei bela, serena, tranquila e dona de uma dignidade única.
Não é escura nem feia como dizem, não é medonha como a caracterizam, não é má como a pronunciam…
O seu silêncio diz tanto! O seu mistério é encantador, deslumbrante até!
O corpo que os meus olhos avistaram e que foi “povoado” pela Senhora Morte, não me disse nada, mas o que existia e se fazia sentir em seu redor disse-me as coisas mais belas que já alguma vez ouvi.
Conheci  finalmente o verdadeiro sentido da palavra recordação, amor, e saudade. Encontrei o valor da eternidade, da compaixão e da misericórdia.
Por estranho que pareça o seu corpo gelado aqueceu a minha alma, as minhas mãos e os meus lábios.
Hoje, sinto-a mais próxima de mim, sinto que me acompanha em todos os passos, atos e pensamentos.
Tanto me falou da morte e eu nunca a compreendi e por coincidência ou não, foi Ela que ma mostrou e que ma fez entender tão bem!
Hoje vejo a Senhora Morte com outros olhos, e mais uma vez aprendi, que, nunca se deve fazer juízos de valor sem termos o conhecimento primeiro.
Foi um prazer conhece-la, Senhora Morte! Um dia, quando estiver diante de si certamente lhe sorrirei!

Em memória da minha avó Aninhas…

Inês Massano | 18 de Março de 2011

Uma menina grande ou uma grande menina?


Os sonhos iluminam o seu ser, a imaginação é refletida num espelho mágico e a fantasia vive dentro do seu vermelho coração...

Através de janelas vê o que se passa lá fora, à sua maneira, à sua medida, à dimensão dos seus pensamentos. Interpreta tudo o que vê, sente tudo com muita emoção, mas poucos são aqueles que a entendem...

Os seus olhos ternos e coloridos de múltiplas cores, que por vezes parecem ausentes, veem o que mais ninguém consegue observar.

Há um segredo: ela é diferente, é especial! Dentro da sua cabeça existe um mundo, com céu e tudo... Onde moram o mar, árvores, nuvens, peixinhos, flores, pássaros, princesas e príncipes e, até, algumas bruxas más...

Quando toca no céu da sua cabeça, sente-se a dona do mundo, quando toca as águas do seu mar transforma-se numa sereia. Brinca alegremente com os seus amigos peixes e canta a par com os pássaros de mil cores!

Quando é hora de ser a princesa, as luzes acendem-se e os suaves panos de tule esvoaçam; é a hora de voar, de dançar e de brilhar. É a hora de ser feliz!

À luz das estrelas, e da sorridente lua do seu céu azul-escuro, aparecem multidões de pessoas. Admirada por todos, batem-lhe palmas, sorriem-lhe e abraçam-na.

Todos cabem dentro da sua cabeça, até um enorme salão de baile enfeitado de cristais brancos, repleto de flores perfumadas e velas de vários tamanhos e feitios!

Entre os seus amigos, a menina dança ao som de melodias desconcertantes, enchendo-se de alegria e de doces sorrisos.

É tão bonito este mundo! Um mundo que não foi criado nem por Deus nem pela evolução dos tempos, mas sim, por ela. Criado por uma menina de apenas seis anos. Um mundo que dura há um quarto de século! Esperemos que continue a crescer, a evoluir e a ficar cada vez mais encantado e belo.

Um dia essa menina velhinha levará até lá os seus netos e mostrar-lhes-á todos os seus tesouros e segredos. Eles vão admirar-se e questionar como é que a avó viveu uma vida inteira dentro de um mundo tão secreto e paradisíaco.

A imaginação pode ser do tamanho do mundo ou até mesmo do universo, mas não é certamente maior do que o mundo que existe dentro da cabeça dessa menina.

Dedico esta história à minha infância, à menina de seis anos, que conseguiu encontrar dentro de si, o delicioso mundo dos sonhos!

Uma menina grande, mas no fundo...uma grande menina! 

Inês Massano | 2010