sexta-feira, 9 de maio de 2014

"Primavera"...



Primavera é o título de um belo quadro que adquiri há muitos anos. Mais tarde ofereci-o a uma filha. Hoje, chamaram-me a atenção. - É muito belo! - O quê? Respondi. - Aquele quadro. - Pois é. Muito belo, mesmo. Tem uma história.
Há muitos anos, na altura do Natal, pedi a uma senhora, que costumava fazer limpezas, se não se importava de ir a um pinhal meu cortar um pequeno pinheiro, jeitoso, para fazer a árvore do Natal. Ela sabia o local, não era muito longe. Respondeu-me que sim. Passados dois ou três dias apareceu com um delicado e harmonioso exemplar. Felicitei-a pelo gosto, o que me surpreendeu sobremaneira, dado a sua falta de jeito e alguma brusquidão. O pinheiro foi alvo de atenções e enfeitado à maneira. O pessoal ficou satisfeito e orgulhoso da árvore de Natal, talvez a mais bela que alguma vez entrou em casa. 
O Natal passou e o novo ano nasceu normalmente, sem grandes dores. Passadas algumas semanas, já o sol aquecia com volúpia os corpos e as mentes dos mais carenciados, a senhora surgiu-me em casa, muito nervosa, dizendo que tinha sido notificada para ir à GNR. Estranho. - O que é que aconteceu? Não foi difícil saber a causa de tão inusitada convocatória. Nas terras pequenas sabe-se tudo, mesmo antes do seu tempo. Foi acusada de ter furtado o pinheiro. Afinal, talvez para não se deslocar ao meu pinhal, optou por arranjar um nas proximidades da sua casa. Viram-na e denunciaram-na ao dono, o qual, por sua vez, foi à GNR participar o ocorrido. Fiquei incomodado pelo facto, mas como o pedido de indemnização poderia ser avultado para as suas posses, senti que tinha a responsabilidade de arcar com as consequências. Se não tivesse feito o pedido, a taralhoca não teria feito o que fez. No dia aprazado, sem estar notificado, também compareci no posto, onde já se encontrava o queixoso, com tiques de demandante, a taralhoca responsável pelo situação e o militar que, num fastidioso interrogatório, ia batendo as teclas da velha máquina de escrever, mas apenas com o indicador da mão direita. Pelo andar do matraquilhar as coisas iriam levar muito tempo. Quando chegou à matéria de prejuízos, virou-se para o proprietário e perguntou-lhe o valor. O demandante disse uma cifra avultada, atribuindo ao pequeno pinheiro qualidades e uma raridade botânica perfeitamente ridículas. O militar, que tinha o dedo indicador no ar, ficou de cara à banda. Repetiu a pergunta duas ou três vezes para ter a certeza que tinha ouvido bem, mas o dono, cara sisuda, confirmou. 
Há certas situações e comportamentos que não consigo compreender. Face ao pedido, algo desmesurado para o pinheiro em causa, reagi da melhor maneira. Saquei de um cheque e comecei a preenchê-lo com a cifra indicada, pronto para o entregar ao proprietário em nome da acusada. Ficaram todos surpreendidos com o facto de ter aceitado sem discussão o dinheiro solicitado. A taralhoca ficou de boca aberta, até me pareceu que abriu as pernas como a querer equilibrar-se, e o militar parecia que tinha sofrido uma espécie de paralisia e gaguez, sempre com o indicador da mão direita no ar. Pobre dedo, não sabia qual a tecla a martelar. O queixoso de maus fígados avermelhou-se e encolheu-se perante a minha reação. - Aqui tem o cheque e peço desculpa pelo incómodo provocado pela senhora. Olhou-me, gaguejou, disse qualquer coisa, não foi muito preciso, mas desistiu da queixa. O militar suspirou de alívio e o indicador da mão direita finalmente acabou por descansar. Já merecia. A senhora, a taralhoca, suspirou. Eu recolhi o cheque, dei os bons dias e fui-me embora. Ao final da tarde, de regresso a Coimbra, passei por uma galeria de arte, onde estavam alguns quadros do Monsenhor Nunes Pereira. Olhei para a "primavera", tão bela. Preço? O mesmo que o dono do tal abeto raro e "extraordinariamente valioso" queria. Tirei o cheque do bolso e adquiri a bela obra de arte. 
Se não fosse este episódio não teria a oportunidade de saborear a arte de um artista excecional. A árvore do Natal foi a mãe da "Primavera". Acabei por o ofertar à primavera de uma vida...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

"Vermelho"...


A noite fria não incomodava. A sala estava iluminada pela luz do tempo, morna, amarela e muito fraca, mas era suficiente para apreciar a grande árvore, que tinha sido cortada no pinhal durante a manhã. Não era um pinheirito, mas um pinheiro espigado, já deveria ter entrado na idade do armário. Muito mais alto do que eu, obrigava-me a olhar para o alto, onde um pai Natal, bolachudo, se escarrapachava com uma alegria difícil de explicar. Pequenos e pobres ornamentos pendiam dos ramos ainda húmidos da noite e do mês. Não estava iluminado, apenas uns flocos de algodão que deveriam querer limpar algumas das feridas provocadas pelo transporte. Tinha-o visto a entrar de rastos sem um ai, sem sinal de que estava a sofrer. Não gostei que o tratassem daquela forma. Não merecia. 
É hoje? É. Quando? À noite. E por onde vai entrar? Não sabemos. Talvez pela chaminé. É capaz. É tão larga que não vai ter dificuldade em descer. Posso ver? Podes. Ele não se importa? Não. Só que às vezes é tão rápido que nem se deixa ver. Mas eu quero vê-lo. Está bem. Assim que chegar chamamos-te. Ainda falta muito? Um pouco. Posso ir para junto da árvore? Podes. Ele não se importa? Não. Ele é bom, não é? Claro! Até traz prendas. Ele não se esquece de vir, pois não? Não. Está descansado. Seria a última coisa que ele fazia. Ele anda perto? Talvez, não se sabe. Tenho sono. Não queres ir para a cama? Não. Eu quero vê-lo. Está bem. Vais vê-lo, descansa. Falta muito? Não. Falta pouco. Mas eu tenho sono. Então, descansa um pouco que eu vou para a sala e assim que ele chegar eu chamo-te. Pode ser! Mas chamas-me? A sério? Sim, chamo, está descansado. Está bem. Eu vou, mas não te esqueças de me chamar. Está bem, fica descansado. Não sei se dormi, se fiquei acordado ou entre os dois. Subitamente ouvi um grito a chamar-me. Ele está aqui, ele está aqui. Salto e corro num ápice para chegar a tempo. Bastava dar um pouco mais de meia dúzia de passos. Cheguei sem ter respirado nem uma vez. Ouvi algo a andar com um som metálico que se meteu entre as minhas pernas, um carro vermelho, lindo como um belo dia de primavera. Não sabia o que fazer, se olhar para o carro, vermelho, se para o local onde ele estava. Onde está? Onde está? Vai a descer as escadas. Corre que ainda o apanhas. Corre, depressa. Galguei as escadas correndo o risco de ir aos trambolhões na esperança de o ver. Na sala, ouvia, corre, corre, ainda o apanhas, ainda o apanhas, foi ele que deu a corda ao carro. Vê se o apanhas. Abro a porta e sinto o bafo frio do breu que se espalhava pela rua. Olhei e vi um vulto a voar com contornos indefinidos, mas, mesmo assim, vi a determinado momento a sua cabeça a virar-se na minha direção com o mais belo sorriso que jamais vi em toda a minha vida. Disse-lhe adeus, ele riu-se, mais uma vez, acenando-me com as mãos. Fiquei até desaparecer, imerso na escuridão silenciosa de uma noite de inverno. Subi lentamente as escadas, peguei no belo carro vermelho, dei-lhe corda, e brinquei. Perguntaram-me: Então, conseguiste vê-lo? Não respondi, deixei que o silêncio se interpusesse entre o meu carro vermelho e as perguntas que iam sucedendo. Até que chegou a minha vez de dizer. Deu-me um carro vermelho, tão lindo e que anda sozinho. Não, não consegui vê-lo, estava muito escuro. Mas não faz mal. Já tenho o que queria. Afinal, ele é mesmo meu amigo! Ainda hoje ninguém sabe que eu o vi. Mas ninguém tem de saber estas coisas. São minhas, só minhas. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

"Um dia"...


Passo por velhos locais que envelhecem e rejuvenescem num equilíbrio sedutor. Olho e sinto o despertar de emoções, como se fossem quedas de água de saudades, eternamente frescas, cantando, rindo e brincando. Olho para os velhos recantos, sempre novos, e sinto o reviver de encantadores sentimentos. Sinto, subitamente, o acordar do vento, vestido de brisa, vaidoso e aparentemente indiferente à minha passagem. Parece que se lembra de mim. Sinto as suas carícias, doces e voluptuosas a tatear a minha face como se fosse um cego que vê tudo. Tem uma estranha forma de mostrar os seus sentimentos. Tem saudades. Premeia-me com odores discretos e inebriantes de alegria, de paz, de conforto e de esperança. Não sei como é que ele consegue fazer tão enigmática e agradável tisana. O sol pisca-me o olho, como quem diz, eu também ajudo e as árvores balanceiam-se dando a entender que também estão a contribuir. Sorriem, como só elas sabem, numa bela tarde em que o tempo para, para para descansar um pouco. Anda cansado, sente-se e vê-se. Merece descansar à sua maneira, fazendo com que viaje até ao passado. Quando isso acontece o presente desaparece, e quando não há presente o tempo deixa de se preocupar com o futuro. Esquecer o futuro é viver eternamente. Foi o tempo que me disse; eu acredito ou faço por acreditar, até que um incómodo pensamento me perpassou pela mente, um dia não vou sentir nada disto, um dia será o último que vou passar por tão belos e enigmáticos lugares. Todos se riram, abanaram as suas cabeças e disseram num sussurro, em coro, pois vai, e depois? Nós não te vamos esquecer. Não vês que o que te estamos a dar não são mais do que as nossas lembranças de outros que tais... E tu gostas! Não gostas? Gosto.

terça-feira, 9 de julho de 2013

"Fogo"...

As cavacas despidas e desmembradas com a velha rasoira eram colocadas em pequenas pilhas em amena cavaqueira com as pinhas secas. Incumbiam-me de atear e alimentar o fogo. Gostava de o fazer, com cuidado e com admiração, sabedor de antemão dos frutos de conforto que iria sair daquele monte tão carinhosamente preparado. Ensinaram-me e aprendi. Via as belas labaredas a desenharem figuras e quadros que eu só sentia e compreendia. Ouvia o crepitar das madeiras e das pinhas cantando doces poemas e dançando loucos passos de bailado, até que o cansaço as transformava em brasas saudosas de um passado recente que nunca mais iria repetir-se. Olhavam-me vermelhas de cansaço. Já não conseguiam falar, mas, mesmo assim, ouvia-as numa inocência adivinhadora do seu fim. Em breve iriam transformar-se em cinzas, leves, suaves e cheias de encanto, encanto de liberdade e de paz. Foi assim que iniciei a minha aprendizagem com o fogo, encantador, sedutor, libertador e também destruidor. Aprendi e não esqueci. Vi vezes sem conta a sua beleza. Vi algumas vezes a sua capacidade de destruir e de matar. Nos dias quentes de verão obrigava o céu azul a enegrecer-se de maldade e, ao final da tarde, com um terrível e espetacular vermelho, revelava a sua paixão traída, mas também vi a doçura e o encanto das suas chamas tranquilas, e praticamente imóveis, oscilando ligeiramente para mostrar que estava vivo, quando iluminava de forma suave as faces de belas e sedutoras santas, desejosas de beber o seu calor e apreciar a leveza da sua cor. Vi chamas azuladas e frescas a ajudarem a aliviar o sofrimento de doentes. Vi e conheço muito das suas labaredas: domesticadas, selvagens, puras, caridosas, nutritivas, raivosas, suaves, doces, sedutoras, amorosas, fúteis, revoltadas, cheias de fé, testemunhas de saudades e purificadoras do corpo e da alma. Não conheço nada que se pareça com o fogo: o elemento que encerra em si a vida, a morte, a destruição, o prazer, o amor, a saudade, a fé e a pureza libertadora da vida e da morte.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

"Flores"

Há muitos anos, numa manhã de domingo, brilhante e cheirosa, recordo um céu azul acabado de pintar. A atmosfera era tão transparente como se tivesse nascido naquele preciso momento. O silêncio matinal permitia que belas flores, frescas, se emocionassem, libertando pequenas lágrimas de água pura. Quem as bebesse decerto encontraria a felicidade, mas, envergonhadas, escondiam-nas de imediato. Uma flor não gosta que lhe toquem quando se emociona. É o seu estado de alma mais misterioso, é o seu segredo e todas prometeram não o revelar aos humanos, apenas a almas livres. Cantam e encantam, nascem e morrem, vivem e deixam viver, enfeitam e deixam-se enfeitar, dóceis, obedientes, alegres e embelezam o mundo. Servem para tranquilizar a ansiedade da vida, curar a tristeza dos que sofrem e para alimentar a esperança dos desesperados. O mundo sem flores não tinha qualquer sentido, seria um mundo sem vida, sem esperança e sem beleza. Olha-se para uma flor, toca-se numa flor, cheira-se uma flor, oferta-se uma flor e o mundo adquire outra cor e conhece o amor. Desde sempre, desde que soube que existia, o homem procurou a flor para aliviar a sua dor e testemunhar o seu amor. A flor não se importa de morrer, até agradece, porque alivia a dor de quem fica e revela os segredos da felicidade a quem parte, dando-lhes a beber as suas lágrimas de emoção...

"Medo"...


Punham a telefonia a tocar baixinho. A telefonia tinha uma pequenina luz, ficava vermelha quando se ouviam ruídos de dor e verde quando tocava música suave. Os ruídos incomodavam, pareciam gritos de dor, agudos, como se estivessem a picar alguém. Picar, já sabia o que era. Provocava dor e gritos. A escuridão da noite assustava-me, não conseguia ver nada, e quando via ficava com medo. A lâmpada amarela da cozinha tinha o estranho hábito de dançar à noite fazendo com que surgissem das paredes monstros e gente má embrulhada em capotes prontos a fazerem-me mal. Fechava os olhos. Preferia que tivessem apagado a triste, silenciosa e descorada luz da cozinha. Olhava apenas para aquele pontinho verde, lindo, que brilhava e até piscava. A música que saia da caixa ajudava-me a não ver os vultos que andavam na cozinha à solta. Eu sabia que enquanto tocasse eles não entravam no quarto e não me levavam. Eu não queria. Tinha medo que a caixa se calasse. Quando os acordes musicais denunciavam que a música ia terminar ficava assustado. Será que agora não vai aparecer mais nenhuma? Mas aparecia, e a nova música tranquilizava-me novamente. Lá fora, os vultos silenciosos dos monstros, impacientes por entrar, ficavam cada vez mais raivosos. Tinham medo da música e daquele belo e brilhante foco verde. 
O meu medo nasceu de noite, na escuridão, ou na penumbra desenhada pela lâmpada amarela, triste e cansada da cozinha, que gostava de baloiçar e de abrir as portas a monstros e a outros seres que eu desconhecia e que aprendi serem capazes de fazer mal a uma criança. Aprendi e temi. Encolhia-me e deixava-me levar por aquelas bandas musicais cujos acordes suaves e misteriosos queriam proteger-me. Não sabia de onde vinham, só sabia que vinham para me ajudar e defender. A luzinha verde deveria ser o sinal para saberem onde estava. É aqui. Ele está aqui. Eu estou aqui, dizia. Eu estou aqui. Ouvia, ouvia até adormecer e ouvia enquanto dormia e sonhava. Continuei a ouvir. Continuo a ouvir. Afinal o medo é muito fácil de combater, basta uma simples telefonia, ouvir suaves acordes misteriosos e ver uma pequenina luz verde...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Telemóvel"...


A ida ao Porto, num dia de feriado em Coimbra, deveu-se à necessidade de participar numa reunião de um conselho da Ordem dos Médicos. Para evitar cansar-me optei, naturalmente, ir de comboio, o que me apraz muito. A viagem demora apenas uma hora e dá tempo para algumas leituras e descanso. Foi o que pretendi fazer. Sentei-me. Ao meu lado direito uma senhora oriunda da capital dormia. Não a incomodei, apenas sugeri suavemente que tirasse a sua mala para poder sentar-me. Assim o fez e voltou a fechar os olhos. Eu comecei o meu ritual ferroviário. Ainda não tínhamos parado em Aveiro, quando o seu telemóvel se pôs aos soluços com um daqueles toques irritantes. Começou a falar como uma Isa, preocupada com o seu menino, perguntando se estava bem. - Está sonolento? Deve ser do Atarax, não se preocupe, coitado, é por causa das comichões. Sabe, o Atarax provoca sonolência - Ah. É verdade. As alpergatas estavam uma maravilha. Tão interessantes. Gostei muito. Olhe eu queria pedir para trocar uma mala bege. A conversa saltitava de tema para tema, sempre em voz alta, desprezando os restantes passageiros, nomeadamente eu que estava mesmo a seu lado. Conversas que perturbavam. Passava do seu cansaço para o trabalho, para a história do táxi da manhã e para as caixas que tinha ainda de arranjar no instituto. Descreveu a viagem para o Porto e o "incómodo" de ir em classe conforto sem conforto, porque os bancos não rebaixavam suficientemente, não tinham almofadas e tinham coisas de plástico, um horror, um desconforto para quem viaja, sabe, entende. Em seguida passou para os pedidos. Buscar aquilo e outras coisas. Comentou a falta de jeito do marido, descreveu os desejos de um amigo que quando se reformar quer ir passar temporadas aos Açores, falou com o seu menino, olá querido, como passou, dormiu bem meu amor, olha queridinho a mamã vai a caminho do Porto, está muito cansada, mas regressa logo, você, filhinho, mais o papá e o seu irmão vão buscar-me à estacão do Oriente, sim. Depois vamos jantar e levo o menino a casa da vovó, sim meu lindo, meu pequerrucho. Enfim, poderia continuar indefinidamente a relatar as conversas e mais conversas, sempre com uma entoação enjoativa no final das frases a relembrar uma qualquer estenose nasal, profundamente irritante, e tradutora de uma certa estirpe lisboeta. Eu bem queria ler, eu bem queria descansar, eu bem queria viajar em silêncio, mas não conseguia, o desplante da senhora provocou-me enjoo. Coloquei tudo na pasta, a revista, o livro e o tablet. Anda tentei ir para a plataforma da carruagem. Entretanto, o altifalante precedido do toque de aviso sinalizou aproximação a Vila Nova de Gaia. Surpreendida, comentou nervosa para a mamã, olha será que já passei Campanhã? Estou a ouvir que vamos chegar a Vila Nova de Gaia e eu não sei onde fica! Espera um momento. Vi logo que ia sobrar para mim. - Desculpe, mas já passámos Campanhã? - Não minha senhora, é agora a seguir, felizmente! - Obrigada. Olha mamã, afinal ainda não passei Campanhã. Estou mais aliviada. E eu também fiquei, foi só atravessar a ponte...


"Palavras difíceis"...


É preciso viver muito para entender o passado, e à medida que o tempo avança mais facilmente viajamos até a certos momentos em que as coisas eram tão naturais que nem nos apercebíamos da sua existência e importância. Tudo se processava a passo de caracol, os dias pareciam ser longos, as noites curtas, tamanha era a vontade de dormir, as brincadeiras rendiam e só se rendiam ao cansaço, algo difícil de atingir. À noite, depois do jantar, havia ainda tempo para ir até aos bombeiros ou à casa do povo para jogar ping-pong, ao bilhar, ao jogo da glória, ao dominó ou às damas. Era preciso pelo menos um adversário, o que não era problema, o mais complicado era arranjar mesa, fosse a do bilhar, a do ténis de mesa ou as ditas normais para os outros jogos. Mas se fosse um pouco mais cedo não tinha grande dificuldade. 
Alguns de nós continuavam a estudar, outros, não, trabalhavam, mas havia um sentido de irmandade que a descriminação de acesso aos estudos nunca obstruiu, nem na altura nem ainda hoje passados tantos anos.
Um dos meus parceiros do jogo de damas, a quem ganhava quase sempre, o que me dava uma satisfação enorme, tinha o seu estilo próprio, um vozeirão do caraças e uma humildade que dava para enriquecer algumas centenas de gajos dos tempos atuais. Origem mais do que modesta, pobre, como era habitual, trabalhava como moço de recados de alguém altamente respeitado e considerado. Cedo se apercebeu da importância das palavras e das frases, muitas das quais não conhecia o sentido. Seduzido pela sonoridade e pelo impacto que lhe deviam provocar no seu cérebro, criado e moldado na pobreza de então, fazia esforços para as decorar e decifrar. Quase todos os dias me dizia uma ou duas palavras novas com as quais queria compensar a derrota às damas. Como quem diz, tu sabes qual é o significado? Eu tentava e muitas delas não me causavam quaisquer problemas. Tornou-se um segundo jogo em que acabava, também, por "perder". Um dia comunicou-me que tinha comprado um dicionário. -É para saberes o significado das palavras que vais ouvindo?- É, e também para aprender palavras difíceis. -Palavras difíceis?! Explica lá melhor. - Ando a decorar palavras difíceis. - A decorar palavras difíceis? Mas para quê? - Porque é muito útil. As pessoas importantes que conheço só usam palavras muito complicadas. - Mas tu sabes utilizá-las? - Qual é o problema? O que eu quero é ser importante, porque os senhores doutores e os senhores juízes só usam palavras difíceis. - Oh, deixa-te disso. Não sejas parvo. - O que tu tens é medo de as não compreenderes! - Vais ver logo. Quero ver se sabes o significado de algumas palavras que vou levar. - Está bem! Leva o que quiseres. Mas vai-te preparando para levares mais uma abada no jogo das damas.
Sempre que o vejo, a andar vergado, como se fosse uma carroça de eixos enferrujados, tisnado com uma coloração amarelada a fugir para o escuro, inventando passos muito curtos, com um olhar vago como se estivesse à procura de um dicionário perdido na sua imaginação possuída pela doença, com um cigarro pendurado nos lábios engrossados pelo tempo e pela medicação, revivo com ternura os momentos em que conseguia ganhar com facilidade ao jogo das damas e ao jogo das palavras difíceis. 
Como o tempo muda as pessoas, mas não muda a essência das almas. Não perdeu a humildade nem o respeito. Há coisas que nem a idade, nem a doença e nem o infortúnio conseguem apagar....

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dança, dança com alegria!








Vovô! Sim. Toma. O quê? Este desenho. Muito obrigado, és uma bela menina. É para tu escreveres uma história. Pode ser? Escreves uma historiazinha para mim?

Um pedido, inusitado, da minha neta de oito anos. Habitualmente costuma ser ao contrário. Primeiro escreve-se, depois é que se ilustra, mas a minha neta inverteu a ordem, e eu respeito. Espero que seja do seu agrado e que continue pela vida fora a interessar-se pela arte, pela escrita, pela cultura, porque só assim conseguirá saborear com satisfação a sua existência.



Era muito pequenina. Um dia começou a movimentar o seu corpo de forma estranha. Sentia-se leve, como se não tivesse peso, flutuando ao sabor do vento, e um calor agradável, como se o sol tivesse despertado dentro de si, aquecia-lhe algo que só mais tarde soube que era a sua alma. Aprendeu que estava a dançar. Gostou tanto que quis ser bailarina. Mas não tinha a saia adequada para poder voltear nos bicos dos pés, de abraços abertos com vontade de agarrar o mundo à sua volta. Quem gostava dos volteios, daquela alegria, da leveza de um corpo animado por uma alma quase feliz, era o sol. Todos os dias, o sol, quando despertava, sorria preguiçosamente lançando raios matinais de uma cor que seduzia os olhinhos da menina. Era esta a cor que eu queria para a minha saia de ballet, dizia para si a menina. A mãe conseguiu-lhe arranjar um tecido velho cheio de rendinhas, suave, baço, solto, mas descorado pelo tempo. Não tinha posses para mais. Foi numa velha arca que encontrou o resto de um vestido. Não sabe a quem terá pertencido. A uma bailarina? 
A menina começou a vestir a saia feita do velho tecido, branco, talvez tivesse sido prateado, mas agora estava baço e amarelado. O que ela queria era uma saia nova, brilhante, da cor dos raios de sol quando este acorda ainda meio dorminhoco. O seu desejo era tão grande que passou a sonhar com a sua bela saia, brilhante como os raios de sol de uma manhã de primavera. Que alegria. Uma alegria que só ocorria durante o sono. De dia, tinha de se contentar com o que tinha. Muitas pessoas começaram a ouvir que havia uma estranha bailarina que dançava para o sol. Todos queriam vê-la, mas não sabiam onde procurar.
Um dia, estava a menina a dançar de manhã, quando o sol, que gostava imenso de a ver assim que acordava lhe disse: - Sabes, esta noite não dormi fiquei acordado dentro do teu sonho. Eu sei o que tu queres. A menina não percebeu bem o que é que o sol queria dizer, quando, subitamente, raios avermelhados se projetaram sobre si e a sua saia ficou brilhante, muito brilhante e da cor do sol quando acorda. Ficou tão feliz que dançou, dançou como nunca tinha dançado e o sol ficou muito feliz por a ver dançar daquela maneira. As pessoas olharam para o sol e viram que do dourado do sol saíam raios diferentes tão belos, róseos, que incidiam num determinado ponto da floresta. Dirigiram-se para lá e ficaram deslumbrados com tão belo espetáculo. Uma menina de olhos negros   e cabelos de ouro, que vestia uma saia feita de raios do sol, alaranjados, róseos, avermelhados, dançava como se fosse feita de vento. Um grande Ah! de espanto libertou-se daquelas gargantas ecoando pelo mundo. Convenceram-se de que era a menina que lançava ao sol raios de felicidade. Afinal, pensaram, o sol também precisa de se alimentar dos raios de felicidade de uma menina que adora dançar, porque a dança é a manifestação de alegria de uma alma feliz. Desde então, sempre que de manhãzinha se levantam para ir trabalhar, e veem os raios róseos no céu, sabem que é a menina, que dança alegremente na floresta, a enviá-los ao seu amigo, o dorminhoco do sol. 
O sol precisa, ao acordar, de alegria para que possa por sua vez nos alegrar durante o dia.
Dança, dança com alegria, o sol agradece e nós também.

Um desenho no céu!

 


É difícil não pensar na morte quando a vimos diante de nós, a sentimos e lhe tocamos. Tenho por hábito tocar-lhe. Gosto de tocar em tudo, sentir as coisas nas mãos, até a morte!
Mais uma vez lhe toquei. Não me assusta, pelo contrário, tranquiliza-me, acalma-me, talvez porque a respeito tanto.
Há dias toquei-lhe, ainda viva, com os dois beijinhos habituais. Cheirava a cigarros, como sempre!
Falávamos sempre do mesmo. Encostadas à parede da casa cor de rosa permanecíamos algum tempo a discutir os problemas atuais, sobretudo a doença que afetou o país e a angústia da falta de emprego.
Era perita em animar as pessoas, dirigindo sempre palavras de alento e de esperança. Ouvia-a sempre com atenção e queria acreditar no que dizia.
Recordo-me do início deste percurso, o percurso de quem fica sem emprego. Como tantos, fui obrigada a ter que me dirigir quinzenalmente à minha Junta de Freguesia com a finalidade de dizer Estou aqui, estou viva! Sou merecedora do meu subsídio de desemprego. Quando tudo começou, achava esta rotina um aborrecimento, para não dizer outra coisa. Era uma verdadeira chatice aquela obrigação, aquele dever... Mas tinha e tem que ser!
Certo é, que, com o passar do tempo, comecei a gostar de ir. A simpatia das duas senhoras que lá trabalham, que tão bem me recebem e tratam, agrada-me, sem falar das palavras amigas e da força que ouvia e sentia da Senhora Presidente.
A minha filha, por vezes, ia comigo e gostava de sentar-se na sua gigante cadeira.
Uma vez, rodeada das bandeiras, chegou até dizer: "Um dia, também quero ser presidente da Junta de Freguesia!" Foi uma risada!
Na parede, a imagem do Presidente da República chegou a ser confundida com a imagem do avô Salvador.
- Senhora Presidente, porque está ali a fotografia do meu avô?
- Aquele senhor é o teu avô?!
Olhou com mais atenção e reparou que não era.
- Pois, não é... Então quem é? Questionou.
- É o Presidente da República! Explicou-lhe...
- É um senhor importante?
- É... Muito! É o "chefe" do nosso país.
- Ahhhh...
Curiosa como sempre, quis também conhecer as bandeiras e os seus significados! Conheceu a bandeira de Portugal, da cidade de Coimbra e da Freguesia de Eiras.
Dias depois, quando tive que me apresentar na "visita" quinzenal, a Maria Leonor encomendou-me uma tarefa: entregar um desenho à senhora presidente. Ficou feliz, claro, e colocou-o na sua sala, em exposição, junto ao seu vasto espólio.
Dia 25 de Junho, ao entardecer, recebi a triste notícia: Filomena dos Santos tinha falecido nesse dia.
Chamei a minha filha e contei-lhe que a sua amiga, a presidente da junta, tinha ido para o céu. A reação foi inesperada: um sorriso enorme, um brilho nos olhos e da sua pequenina boca saiu a seguinte frase: "Que bom, mamã! Agora, a avó Aninhas vai ter mais uma amiga para brincar"!
Recolheu-se. Fui ver onde estava. De joelhos numa mesa pequenina estava a fazer um desenho. Representou uma menina entre flores e um sol gigante e escreveu o seu nome duas vezes. Deu-me o desenho e disse: Entregas à senhora presidente?
Respondi que sim, claro que sim! Aquele desenho iria chegar até ela.
De manhã cedo, depois de a deixar na escola, fui comprar uma flor, branca, gosto de flores brancas.
Coincidência ou não, era dia de me apresentar na Junta de Freguesia, dia de dizer, Estou aqui, estou viva! Fui. A sala estava escura, a cadeira gigante vazia e o retrato do Presidente da República sem luz. Sempre com o desenho na mão, não sabia que destino lhe dar. Pensei em deixá-lo na sua secretária, na esperança de algum familiar pudesse ficar com ele. Não, pensei melhor. Carimbei o meu papel e dirigi-me à capela. Chego, apenas duas pessoas idosas, deviam ser dois habitantes da terra. Em seu redor não havia, ainda, flores, era cedo. Com o desenho na mão e a flor na outra não sabia onde os deixar. Decidi, então, colocar a seus pés o lindo desenho da Leonor acompanhado da minha flor. E para que ela não se esquecesse, tirei da minha carteira uma caneta para escrever no desenho a frase que um dia lhe provocou uma gargalhada: Um dia, também, serei presidente da Junta de Freguesia.
O desenho foi com ela, a seus pés.
Sorri para ela, outro hábito meu. Sorrir sempre para quem parte!
Mas a história não acaba aqui
À noite, a Leonor espera o avô Salvador, como quase todos os dias. Entre as suas conversas ela segreda-lhe:
- Sabes, vovô, o meu desenho já chegou ao céu!
Até sempre, Filomena.


"Mactérias"

É bom estar atento aos miúdos, porque quando menos se espera aprende-se alguma coisa, pelo menos ficamos a saber, ou a imaginar, como funcionam aqueles pequenos cérebros ávidos em compreender o mundo que os cerca. 
O primo, um ano mais velho, sofre de cárie. Uma situação muito comum nestas idades. Apesar dos cuidados de higiene oral não conseguiu evitá-la. Tomara! É uma criança como qualquer outra, gosta de se alambazar com produtos altamente cariógenos, o que pode ter consequências, por vezes dolorosas, como foi o caso desta semana. Antes, já tinha sido sujeito a tentativas de tratamento, mas, como estávamos à espera, opôs-se com determinação, ou seja, com medo, comportamento típico nestas idades, embora as condições atuais não tenham nada a ver com os dignos representantes dos "dentistas-barbeiros" que, no meu tempo de criança, revelavam ainda resquícios de aspirantes a torturadores da Santa Inquisição.
As conversas sobre este tema, cárie, doces, chocolates, lavagem e escovagem dos dentes são uma constante lá em casa, escutadas ou não pelos protagonistas infantis. Mas devem ser ouvidas, porque se não fossem não teria assistido e tido conhecimento das conversas da mais nova. Face às dores do primo, e ao conhecimento do seu comportamento em recusar o tratamento de dois "buracos", a menina acabou por entabular uma conversa com a mãe, dando provas do seu interesse por este assunto.
"- Sabes o que são cáries, mamã?
- Hummm... Não. Conta-me lá!
- São "mactérias" que querem construir casinhas dentro dos dentes. Então, escavam, escavam, escavam e depois levam para lá a família toda!
- Ahhh... E cabem lá todas?
- Cabem, são todas amigas! Mas só que às vezes fazem doer a casa...
- Pois! É uma grande chatice..."
Hoje, face ao heroísmo e à aceitação por parte do primo em deixar-se tratar com sucesso, a conversa centrou-se no tema durante o almoço. A Leonor explicou-me o que eram as "mactérias", como é que elas entravam nos dentes e faziam a sua casinha para si e para os filhinhos e depois, quando começavam a ressonar, provocavam dores. 
- Como?! As "mactérias" ressonam?
- Sim. E depois fazem doer.
- E o que é que fazem, quando acordam? Não me digas que começam a pular, a correr e a brincar? Perguntei-lhe.
A miúda esboçou um largo sorriso de admiração, dançou na cadeira, revelando uma manifestação de gozo e de incredulidade, e lançou-me na cara, a rir que nem uma perdida:
- Oh, vovô, mas que pergunta tão "podícula"!
- O quê?!
- "Podícula", vovô! Mas tu não sabes de "mactérias"?
- Bom, um pouquinho.
- Ah. Está bem.
- E agora, o que é que vais fazer?
Com o dedo dá a indicação de esfregar os dentes e diz:
- Vou tirar as "mactérias". 
- Antes que escavem os teus dentinhos, não é?
- Pois. É que depois podem "ressonar" e "darem" dores.
- Muito bem Vai lavar os dentinhos.
Pelo menos fiquei a saber o que são "mactérias", bactérias más, que gostam de escavar os dentes para terem uma casinha e que ao ressonarem provocam dores. Esta do ressonar é que ainda não percebi bem. Mas por hoje chega. Espero nos próximos dias aprender um pouco mais. O pior é que o raio de um molar começou a doer-me. Será que tenho lá dentro "mactérias" a ressonar? Às tantas. Na próxima semana vou acordá-las e mandá-las embora, senão quem não vai ressonar sou eu...

Peixinho de olhos azuis...


Desenhos de João, Diogo, Adolfo e Sofia (Liga dos Pequeninos do Hospital Pediátrico de Coimbra. Projeto "Brincar no Hospital" | verão 2013)


A estreita ribeira de águas límpidas dava vida ao povoado, deixando-se passar vezes sem conta pelas pessoas que, no meio da ponte de pedra, paravam quase sempre para a olhar, mas sem pensar. Olhavam e viam pequenos cardumes de peixes pequeninos, brincalhões, muito traquinas, que se punham também a olhar para a ponte de pedra. O Horácio, quando passava a ponte, também olhava, mas pensava nos peixes. Como seria divertido se pudesse brincar com eles. O Horácio era um pescador, mas só pescava no extenso e profundo lago onde havia peixes grandes com olhos tristes. Ali, na ribeira não admitia nem nunca pensou em apanhá-los. Era um local sagrado.
Um dia Horácio viu um pequeno peixe diferente. Tinha olhos azuis. Os peixes não têm olhos azuis. Pensou. A partir daí começou a ver que os outros, que andavam sempre juntos, em correrias loucas, não deviam gostar dele, empurravam-no e maltratavam-no. O peixe de olhos lindos e azuis passou a andar sozinho e muito triste. Horácio não sabia o que fazer. Começou, também, a andar muito triste pela forma como os peixinhos, de quem gostava tanto, tratavam o irmão de olhos azuis. Foi então que um dia viu o cardume de peixes pequenos a rodear o solitário de olhos azuis. Depois empurraram-no para a queda de água e o peixe de olhos azuis foi obrigado a saltar para o degrau seguinte da escada da ribeira. Aqui, ao fim de pouco tempo, o cardume de peixinhos deste degrau fizeram-lhe o mesmo, empurraram-no para a queda de água seguinte. E de degrau em degrau da escadaria de águas frescas e límpidas, onde havia sempre um cardume de peixes pequenos, o peixe de olhos azuis acabou por cair no grande e profundo lago onde passou a viver e a crescer com saudades das águas límpidas e frescas da ribeira, onde queria morar. Preso no profundo e grande lago, pensava nos olhos do Horácio, olhos lindos, azuis celestes, olhos que gostaria de ter. 
Um dia olhou para cima e viu dois pequenos sóis azuis a brilhar através da água. Começou a subir para ver mais de perto o que eram aqueles belos pontos azuis que brilhavam tanto. Na subida passou ao lado de uma minhoca que estrebuchava na água. Como não tinha almoçado, pensou, estou com fome, e, sem hesitar, engoliu-a. Foi então que sentiu uma dor na garganta e começou a ser puxado com força para fora da água. Ficou muito assustado e pensou, vou morrer afogado no ar, nunca mais vejo o local onde nasci e onde sempre quis viver. O salto foi tão grande que, de repente, sentiu um aperto no corpo e viu duas belas safiras muito azuis à sua frente. Eram os olhos do Horácio. Horácio reconheceu os olhos azuis do peixe e ficou muito satisfeito. Com muito cuidado meteu-o num saco com água correndo encosta acima, sempre ao lado da ribeira, com os cardumes de peixes pequenos a quererem saber o que é que se passava. Quando chegou ao local onde tinha nascido, perto da ponte de pedra sobre a ribeira, colocou-o com muito cuidado nas águas límpidas e frescas. Todos os peixes pequenos, muito intrigados, correram para o local e abriram as bocas de espanto quando viram o peixe de olhos azuis. Estava tão grande que era capaz de os comer a todos de uma só vez. Juntaram-se ainda mais, tremeram de medo, e perguntaram-lhe se ia fazer-lhes mal. Não, não quero fazer mal a ninguém, só quero viver aqui e brincar convosco. Não nos fazes mal? Não! Querem ser meus amigos? Eu não deixo que vos façam mal. Horácio não sabia a língua dos peixes, mas compreendeu que algo de interessante se estaria a passar com eles. Quando o belo peixe de olhos azuis começou a nadar, os outros, pequeninos, puseram-se a seu lado em correrias loucas e muito felizes da vida. 
Hoje, há quem diga que é possível ver duas belas safiras de um azul celeste a brilhar na ribeira no meio dos cardumes de peixes pequeninos. Basta parar sobre a ponte de pedra, olhar para a ribeira e pensar como Horácio fazia através dos seus brilhantes e doces olhos azuis...

São meigos, carinhosos…







Ontem, fui visitá-la e lá estava ela, deitada como se estivesse num quarto de hotel, estimada e bem tratada, sorridente... Parecia que estava tudo bem.

Lembra-se de muitas coisas mas não as liga à realidade, ao presente, guarda na lembrança apenas nomes e pessoas que lhe são mais próximas mas tem dificuldade em as identificar.

Com um enorme sorriso, chamou-nos marotas, brincalhonas, minhas queridas e lindas. Gosta de elogiar o próximo, lembro-me dela sempre assim.

Enquanto conversava e fantasiava repetia no final de cada frase: “são meigos, carinhosos…”

A certa altura já provocava risadas entre nós, porque tudo era meigo, querido e carinhoso, até a sua própria casa.

Hoje, voltei lá e passei a tarde a conversar com ela e com uma prima.

Falou, falou, falou...

Durante a longa tarde dei comigo a pensar em muitas coisas, sobretudo, quando ela me olhava fixamente e se esforçava para saber quem eu era e não conseguia. Eu dava uma ajuda e feliz da vida lá dizia o meu nome a sorrir!

A minha prima que é psicóloga ia utilizando alguns termos técnicos para justificar as suas falhas de memória e as repetidas palavras, eu ia ouvindo, uma e outra e a mim própria. Não sei qual das três falava mais, mas o meu silêncio não me deu descanso, por vezes nem as ouvia, só a célebre frase: “são meigos, carinhosos…”

Cheguei à conclusão que não precisamos de grandes estudos para entender ou perceber a complexidade do ser humano, se realmente existe essa complexidade.

Tenho percebido que o ser humano não exige muito, nós é que pensamos que sim. Não são os bens materiais que fazem de nós pessoas melhores e mais alegres, mais realizadas e preenchidas. O dinheiro? Também não, de todo.

O ser humano precisa de estar rodeado de meiguice, de carinho, de afeto e de atenção. Estes ingredientes  são mágicos e fundamentais para sermos felizes, desde que nascemos, durante o nosso percurso de vida até ao leito da morte.

A família é uma dádiva, é a maior riqueza que podemos ter e para quem tem a sorte de  ter um filho, a dimensão da riqueza nem se consegue medir, apenas sentir. Hoje, tive estas certezas todas, pois ouvi vezes sem conta a minha avó falar descoordenadamente sobre estes valores: família e carinho.

Todas as suas conversas têm o mesmo rumo, o mesmo desfecho: o filho, sempre o filho, em primeiro, o Manel, os netos, a nora, a mãe, e por aí fora...

Anda bem disposta, sempre com sorriso para oferecer a quem a visita, a quem trata dela, a quem lhe dá a merecida atenção.

Os seus olhos pequeninos tornam-se a cada dia mais meigos e carinhosos, por todos os motivos.

Ela, como todos nós só anseia pelo carinho, porque não dar? Ela ainda o sente e eu também...


2012

Médica das letras...



Sexta-feira santa, chuvosa, triste, a convidar ao descanso merecido de lutas sem fim, de guerras perdidas, combatendo numa sociedade desestruturada, vazia de ideias, pérfida, idiota, capaz de capar o mais otimista. Acordo cedo. Um castigo imposto pelos dias de trabalho que desconhecem a existência dos feriados. Fiz um esforço adicional para prolongar o tempo de repouso. Soube-me a algo mais simbólico do que prático, mas deu para rememorar outras sextas-feiras santas, tantas, e todas cheias de histórias. Hoje, sexta-feira santa, colecionei mais uma. Gosto de as colecionar, gosto de as registar, gosto de as reler e de as dar a conhecer. Gosto de juntar "as palavras para ficarem boas e bonitas".
Toca o telefone. A voz, nova, doce, timbrada, eivada de encanto e de fantasia, cumprimenta-me com um bom-dia que nem o sol consegue nos dias de verão ao nascer.
- Bom-dia, meu amor.
- Vovô, tens que me ajudar, a mamã acordou com dores de cabeça e não se levanta para tomar o pequeno-almoço. Que é que eu faço? A preocupação era sentida e, no cenário de fundo, ouvia o riso divertido da mãe. Tive de lhe explicar o que é que a mamã deveria fazer, e à medida que ia debitando os meus conselhos divertia-me com os recados amorosos que ela retransmitia, como se fossem os meus ecos, mas mais divertidos e convincentes do que as minhas próprias palavras. Ficou tranquila, a ponto de mudar de conversa e perguntar-me:
- Vovô, queres que te conte umas histórias?
- Conta. Em seguida, demonstrando uma capacidade narrativa invulgar, cheia de tons coloridos, de comentários soberbos, de entoações vocais a lembrarem as ondas a baterem nas rochas ou a espraiarem-se nas areias, lançando risos de estupefação, debitou, mesmo sem conseguir perceber algumas frases, devido à emoção de quem conta com rapidez inexperiente e um aparelho vocal infantil, o relato de um vídeo com "Maique Jesse", que, pelos vistos, adora ver e ouvir e, até, imitar num inglês inexistente.
Uma delícia, confesso.
A mãe apercebeu-se que eu não tinha compreendido bem a história e, por isso, procedeu ao envio do vídeo que esteve na base da história que tentou contar-me. Fez-me gostar do mesmo, porque vi-o com outros olhos. Comentei em seguida que a miúda, apesar de ter quatro anos e três meses, três meses aos quatro anos é muito importante, daqui este preciosismo, é uma excelente narradora. Tem estilo, imaginação e é capaz de prender a atenção. Talvez com o tempo, quem sabe, possa ver o nascimento de uma escritora. Eu gostava. Ainda não sabe as letras, mas com o tempo... Comuniquei à mãe esta minha reflexão, terminando, vou estar atento.
O que é que a mãe fez? Foi-lhe dizer o que eu pensava, que poderia ser mais tarde uma escritora. Ouviu e respondeu:
- Olha, era uma boa ideia, mas gostava mais de ser médica das letras... A mãe, surpreendida com a resposta, perguntou-lhe o que era ser médica das letras.
- Humm... não sei bem, mas é tratar delas, juntar as palavras para ficarem boas e bonitas".
Nunca me tinha passado pela cabeça que ser médico das letras é tratar delas, juntar as palavras para ficarem boas e bonitas. Mas a miúda tem razão, as letras têm de ser bem tratadas, com carinho, com amor e serem transformadas em palavras bonitas. Que mais podemos desejar? Palavras bonitas ditas e contadas por uma criança que ainda não sabe desenhar palavras. Só espero que um dia consiga para meu prazer e de todos que as leiam.
E assim, a sexta-feira santa, chuvosa e triste, transformou-se num símbolo de vida, a convidar à ressurreição, graças a uma criança.
As crianças ensinam-nos. Só temos de estar atentos.


Salvador Massano Cardoso | 2013

Saber escrever...



Existem muitas pessoas que não sabem escrever, usar e conjugar as palavras escritas de forma agradável e harmoniosa, embora saibam falar, discursar e  transmitir oralmente os seus pensamentos e opiniões de forma exemplar.

Não existem modelos a seguir, no entanto noto, que, cada vez mais o ser humano quer à força ser “escritor”.

Sendo a escrita uma fonte de criação, de conhecimento, de memória e de interação social e cultural, deveria então ser tratada com mais respeito e cuidado. Por vezes deparo-me com textos que me fazem arrepiar... 
Confusos, sem interesse, ocos, palavras soltas, autenticas sopas de letras.

A comunicação escrita, como qualquer outra, depende de um contexto e de uma finalidade, por essa razão assumir características tão peculiares.

Há textos e textos, há pessoas e pessoas, cada um com o seu estilo, a sua forma e a sua “fisionomia”.

Alguns escrevem mais e melhor que outros, uns mais poéticos, outros mais pragmáticos, alguns tipicamente “barrocos”,  outros irónicos, enfim, urge a necessidade de competição. É muito importante dominar o código da escrita, não apenas desenhar letras, nem copiar o modo de escrever do outro, mas sim produzir textos, orais e escritos, que digam algo, que sejam genuínos (de preferência), que tenham essência, que sejam ricos, em simbolismos, metáforas, pensamentos, informações...

Um texto, tal como quem o escreve, também tem que ter alma e, todo aquele que o conseguir fazer é indiscutivelmente um bom escritor.



Inê Massano | 2012

A Senhora Morte




Foi preciso Ela morrer para eu deixar de temer a morte.
Hoje, vi, senti e compreendi a Senhora Morte. Chamo-lhe “Senhora”, porque a achei bela, serena, tranquila e dona de uma dignidade única.
Não é escura nem feia como dizem, não é medonha como a caracterizam, não é má como a pronunciam…
O seu silêncio diz tanto! O seu mistério é encantador, deslumbrante até!
O corpo que os meus olhos avistaram e que foi “povoado” pela Senhora Morte, não me disse nada, mas o que existia e se fazia sentir em seu redor disse-me as coisas mais belas que já alguma vez ouvi.
Conheci  finalmente o verdadeiro sentido da palavra recordação, amor, e saudade. Encontrei o valor da eternidade, da compaixão e da misericórdia.
Por estranho que pareça o seu corpo gelado aqueceu a minha alma, as minhas mãos e os meus lábios.
Hoje, sinto-a mais próxima de mim, sinto que me acompanha em todos os passos, atos e pensamentos.
Tanto me falou da morte e eu nunca a compreendi e por coincidência ou não, foi Ela que ma mostrou e que ma fez entender tão bem!
Hoje vejo a Senhora Morte com outros olhos, e mais uma vez aprendi, que, nunca se deve fazer juízos de valor sem termos o conhecimento primeiro.
Foi um prazer conhece-la, Senhora Morte! Um dia, quando estiver diante de si certamente lhe sorrirei!

Em memória da minha avó Aninhas…

Inês Massano | 18 de Março de 2011