quinta-feira, 11 de julho de 2013

"Vermelho"...


A noite fria não incomodava. A sala estava iluminada pela luz do tempo, morna, amarela e muito fraca, mas era suficiente para apreciar a grande árvore, que tinha sido cortada no pinhal durante a manhã. Não era um pinheirito, mas um pinheiro espigado, já deveria ter entrado na idade do armário. Muito mais alto do que eu, obrigava-me a olhar para o alto, onde um pai Natal, bolachudo, se escarrapachava com uma alegria difícil de explicar. Pequenos e pobres ornamentos pendiam dos ramos ainda húmidos da noite e do mês. Não estava iluminado, apenas uns flocos de algodão que deveriam querer limpar algumas das feridas provocadas pelo transporte. Tinha-o visto a entrar de rastos sem um ai, sem sinal de que estava a sofrer. Não gostei que o tratassem daquela forma. Não merecia. 
É hoje? É. Quando? À noite. E por onde vai entrar? Não sabemos. Talvez pela chaminé. É capaz. É tão larga que não vai ter dificuldade em descer. Posso ver? Podes. Ele não se importa? Não. Só que às vezes é tão rápido que nem se deixa ver. Mas eu quero vê-lo. Está bem. Assim que chegar chamamos-te. Ainda falta muito? Um pouco. Posso ir para junto da árvore? Podes. Ele não se importa? Não. Ele é bom, não é? Claro! Até traz prendas. Ele não se esquece de vir, pois não? Não. Está descansado. Seria a última coisa que ele fazia. Ele anda perto? Talvez, não se sabe. Tenho sono. Não queres ir para a cama? Não. Eu quero vê-lo. Está bem. Vais vê-lo, descansa. Falta muito? Não. Falta pouco. Mas eu tenho sono. Então, descansa um pouco que eu vou para a sala e assim que ele chegar eu chamo-te. Pode ser! Mas chamas-me? A sério? Sim, chamo, está descansado. Está bem. Eu vou, mas não te esqueças de me chamar. Está bem, fica descansado. Não sei se dormi, se fiquei acordado ou entre os dois. Subitamente ouvi um grito a chamar-me. Ele está aqui, ele está aqui. Salto e corro num ápice para chegar a tempo. Bastava dar um pouco mais de meia dúzia de passos. Cheguei sem ter respirado nem uma vez. Ouvi algo a andar com um som metálico que se meteu entre as minhas pernas, um carro vermelho, lindo como um belo dia de primavera. Não sabia o que fazer, se olhar para o carro, vermelho, se para o local onde ele estava. Onde está? Onde está? Vai a descer as escadas. Corre que ainda o apanhas. Corre, depressa. Galguei as escadas correndo o risco de ir aos trambolhões na esperança de o ver. Na sala, ouvia, corre, corre, ainda o apanhas, ainda o apanhas, foi ele que deu a corda ao carro. Vê se o apanhas. Abro a porta e sinto o bafo frio do breu que se espalhava pela rua. Olhei e vi um vulto a voar com contornos indefinidos, mas, mesmo assim, vi a determinado momento a sua cabeça a virar-se na minha direção com o mais belo sorriso que jamais vi em toda a minha vida. Disse-lhe adeus, ele riu-se, mais uma vez, acenando-me com as mãos. Fiquei até desaparecer, imerso na escuridão silenciosa de uma noite de inverno. Subi lentamente as escadas, peguei no belo carro vermelho, dei-lhe corda, e brinquei. Perguntaram-me: Então, conseguiste vê-lo? Não respondi, deixei que o silêncio se interpusesse entre o meu carro vermelho e as perguntas que iam sucedendo. Até que chegou a minha vez de dizer. Deu-me um carro vermelho, tão lindo e que anda sozinho. Não, não consegui vê-lo, estava muito escuro. Mas não faz mal. Já tenho o que queria. Afinal, ele é mesmo meu amigo! Ainda hoje ninguém sabe que eu o vi. Mas ninguém tem de saber estas coisas. São minhas, só minhas. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

"Um dia"...


Passo por velhos locais que envelhecem e rejuvenescem num equilíbrio sedutor. Olho e sinto o despertar de emoções, como se fossem quedas de água de saudades, eternamente frescas, cantando, rindo e brincando. Olho para os velhos recantos, sempre novos, e sinto o reviver de encantadores sentimentos. Sinto, subitamente, o acordar do vento, vestido de brisa, vaidoso e aparentemente indiferente à minha passagem. Parece que se lembra de mim. Sinto as suas carícias, doces e voluptuosas a tatear a minha face como se fosse um cego que vê tudo. Tem uma estranha forma de mostrar os seus sentimentos. Tem saudades. Premeia-me com odores discretos e inebriantes de alegria, de paz, de conforto e de esperança. Não sei como é que ele consegue fazer tão enigmática e agradável tisana. O sol pisca-me o olho, como quem diz, eu também ajudo e as árvores balanceiam-se dando a entender que também estão a contribuir. Sorriem, como só elas sabem, numa bela tarde em que o tempo para, para para descansar um pouco. Anda cansado, sente-se e vê-se. Merece descansar à sua maneira, fazendo com que viaje até ao passado. Quando isso acontece o presente desaparece, e quando não há presente o tempo deixa de se preocupar com o futuro. Esquecer o futuro é viver eternamente. Foi o tempo que me disse; eu acredito ou faço por acreditar, até que um incómodo pensamento me perpassou pela mente, um dia não vou sentir nada disto, um dia será o último que vou passar por tão belos e enigmáticos lugares. Todos se riram, abanaram as suas cabeças e disseram num sussurro, em coro, pois vai, e depois? Nós não te vamos esquecer. Não vês que o que te estamos a dar não são mais do que as nossas lembranças de outros que tais... E tu gostas! Não gostas? Gosto.

terça-feira, 9 de julho de 2013

"Fogo"...

As cavacas despidas e desmembradas com a velha rasoira eram colocadas em pequenas pilhas em amena cavaqueira com as pinhas secas. Incumbiam-me de atear e alimentar o fogo. Gostava de o fazer, com cuidado e com admiração, sabedor de antemão dos frutos de conforto que iria sair daquele monte tão carinhosamente preparado. Ensinaram-me e aprendi. Via as belas labaredas a desenharem figuras e quadros que eu só sentia e compreendia. Ouvia o crepitar das madeiras e das pinhas cantando doces poemas e dançando loucos passos de bailado, até que o cansaço as transformava em brasas saudosas de um passado recente que nunca mais iria repetir-se. Olhavam-me vermelhas de cansaço. Já não conseguiam falar, mas, mesmo assim, ouvia-as numa inocência adivinhadora do seu fim. Em breve iriam transformar-se em cinzas, leves, suaves e cheias de encanto, encanto de liberdade e de paz. Foi assim que iniciei a minha aprendizagem com o fogo, encantador, sedutor, libertador e também destruidor. Aprendi e não esqueci. Vi vezes sem conta a sua beleza. Vi algumas vezes a sua capacidade de destruir e de matar. Nos dias quentes de verão obrigava o céu azul a enegrecer-se de maldade e, ao final da tarde, com um terrível e espetacular vermelho, revelava a sua paixão traída, mas também vi a doçura e o encanto das suas chamas tranquilas, e praticamente imóveis, oscilando ligeiramente para mostrar que estava vivo, quando iluminava de forma suave as faces de belas e sedutoras santas, desejosas de beber o seu calor e apreciar a leveza da sua cor. Vi chamas azuladas e frescas a ajudarem a aliviar o sofrimento de doentes. Vi e conheço muito das suas labaredas: domesticadas, selvagens, puras, caridosas, nutritivas, raivosas, suaves, doces, sedutoras, amorosas, fúteis, revoltadas, cheias de fé, testemunhas de saudades e purificadoras do corpo e da alma. Não conheço nada que se pareça com o fogo: o elemento que encerra em si a vida, a morte, a destruição, o prazer, o amor, a saudade, a fé e a pureza libertadora da vida e da morte.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

"Flores"

Há muitos anos, numa manhã de domingo, brilhante e cheirosa, recordo um céu azul acabado de pintar. A atmosfera era tão transparente como se tivesse nascido naquele preciso momento. O silêncio matinal permitia que belas flores, frescas, se emocionassem, libertando pequenas lágrimas de água pura. Quem as bebesse decerto encontraria a felicidade, mas, envergonhadas, escondiam-nas de imediato. Uma flor não gosta que lhe toquem quando se emociona. É o seu estado de alma mais misterioso, é o seu segredo e todas prometeram não o revelar aos humanos, apenas a almas livres. Cantam e encantam, nascem e morrem, vivem e deixam viver, enfeitam e deixam-se enfeitar, dóceis, obedientes, alegres e embelezam o mundo. Servem para tranquilizar a ansiedade da vida, curar a tristeza dos que sofrem e para alimentar a esperança dos desesperados. O mundo sem flores não tinha qualquer sentido, seria um mundo sem vida, sem esperança e sem beleza. Olha-se para uma flor, toca-se numa flor, cheira-se uma flor, oferta-se uma flor e o mundo adquire outra cor e conhece o amor. Desde sempre, desde que soube que existia, o homem procurou a flor para aliviar a sua dor e testemunhar o seu amor. A flor não se importa de morrer, até agradece, porque alivia a dor de quem fica e revela os segredos da felicidade a quem parte, dando-lhes a beber as suas lágrimas de emoção...

"Medo"...


Punham a telefonia a tocar baixinho. A telefonia tinha uma pequenina luz, ficava vermelha quando se ouviam ruídos de dor e verde quando tocava música suave. Os ruídos incomodavam, pareciam gritos de dor, agudos, como se estivessem a picar alguém. Picar, já sabia o que era. Provocava dor e gritos. A escuridão da noite assustava-me, não conseguia ver nada, e quando via ficava com medo. A lâmpada amarela da cozinha tinha o estranho hábito de dançar à noite fazendo com que surgissem das paredes monstros e gente má embrulhada em capotes prontos a fazerem-me mal. Fechava os olhos. Preferia que tivessem apagado a triste, silenciosa e descorada luz da cozinha. Olhava apenas para aquele pontinho verde, lindo, que brilhava e até piscava. A música que saia da caixa ajudava-me a não ver os vultos que andavam na cozinha à solta. Eu sabia que enquanto tocasse eles não entravam no quarto e não me levavam. Eu não queria. Tinha medo que a caixa se calasse. Quando os acordes musicais denunciavam que a música ia terminar ficava assustado. Será que agora não vai aparecer mais nenhuma? Mas aparecia, e a nova música tranquilizava-me novamente. Lá fora, os vultos silenciosos dos monstros, impacientes por entrar, ficavam cada vez mais raivosos. Tinham medo da música e daquele belo e brilhante foco verde. 
O meu medo nasceu de noite, na escuridão, ou na penumbra desenhada pela lâmpada amarela, triste e cansada da cozinha, que gostava de baloiçar e de abrir as portas a monstros e a outros seres que eu desconhecia e que aprendi serem capazes de fazer mal a uma criança. Aprendi e temi. Encolhia-me e deixava-me levar por aquelas bandas musicais cujos acordes suaves e misteriosos queriam proteger-me. Não sabia de onde vinham, só sabia que vinham para me ajudar e defender. A luzinha verde deveria ser o sinal para saberem onde estava. É aqui. Ele está aqui. Eu estou aqui, dizia. Eu estou aqui. Ouvia, ouvia até adormecer e ouvia enquanto dormia e sonhava. Continuei a ouvir. Continuo a ouvir. Afinal o medo é muito fácil de combater, basta uma simples telefonia, ouvir suaves acordes misteriosos e ver uma pequenina luz verde...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Telemóvel"...


A ida ao Porto, num dia de feriado em Coimbra, deveu-se à necessidade de participar numa reunião de um conselho da Ordem dos Médicos. Para evitar cansar-me optei, naturalmente, ir de comboio, o que me apraz muito. A viagem demora apenas uma hora e dá tempo para algumas leituras e descanso. Foi o que pretendi fazer. Sentei-me. Ao meu lado direito uma senhora oriunda da capital dormia. Não a incomodei, apenas sugeri suavemente que tirasse a sua mala para poder sentar-me. Assim o fez e voltou a fechar os olhos. Eu comecei o meu ritual ferroviário. Ainda não tínhamos parado em Aveiro, quando o seu telemóvel se pôs aos soluços com um daqueles toques irritantes. Começou a falar como uma Isa, preocupada com o seu menino, perguntando se estava bem. - Está sonolento? Deve ser do Atarax, não se preocupe, coitado, é por causa das comichões. Sabe, o Atarax provoca sonolência - Ah. É verdade. As alpergatas estavam uma maravilha. Tão interessantes. Gostei muito. Olhe eu queria pedir para trocar uma mala bege. A conversa saltitava de tema para tema, sempre em voz alta, desprezando os restantes passageiros, nomeadamente eu que estava mesmo a seu lado. Conversas que perturbavam. Passava do seu cansaço para o trabalho, para a história do táxi da manhã e para as caixas que tinha ainda de arranjar no instituto. Descreveu a viagem para o Porto e o "incómodo" de ir em classe conforto sem conforto, porque os bancos não rebaixavam suficientemente, não tinham almofadas e tinham coisas de plástico, um horror, um desconforto para quem viaja, sabe, entende. Em seguida passou para os pedidos. Buscar aquilo e outras coisas. Comentou a falta de jeito do marido, descreveu os desejos de um amigo que quando se reformar quer ir passar temporadas aos Açores, falou com o seu menino, olá querido, como passou, dormiu bem meu amor, olha queridinho a mamã vai a caminho do Porto, está muito cansada, mas regressa logo, você, filhinho, mais o papá e o seu irmão vão buscar-me à estacão do Oriente, sim. Depois vamos jantar e levo o menino a casa da vovó, sim meu lindo, meu pequerrucho. Enfim, poderia continuar indefinidamente a relatar as conversas e mais conversas, sempre com uma entoação enjoativa no final das frases a relembrar uma qualquer estenose nasal, profundamente irritante, e tradutora de uma certa estirpe lisboeta. Eu bem queria ler, eu bem queria descansar, eu bem queria viajar em silêncio, mas não conseguia, o desplante da senhora provocou-me enjoo. Coloquei tudo na pasta, a revista, o livro e o tablet. Anda tentei ir para a plataforma da carruagem. Entretanto, o altifalante precedido do toque de aviso sinalizou aproximação a Vila Nova de Gaia. Surpreendida, comentou nervosa para a mamã, olha será que já passei Campanhã? Estou a ouvir que vamos chegar a Vila Nova de Gaia e eu não sei onde fica! Espera um momento. Vi logo que ia sobrar para mim. - Desculpe, mas já passámos Campanhã? - Não minha senhora, é agora a seguir, felizmente! - Obrigada. Olha mamã, afinal ainda não passei Campanhã. Estou mais aliviada. E eu também fiquei, foi só atravessar a ponte...


"Palavras difíceis"...


É preciso viver muito para entender o passado, e à medida que o tempo avança mais facilmente viajamos até a certos momentos em que as coisas eram tão naturais que nem nos apercebíamos da sua existência e importância. Tudo se processava a passo de caracol, os dias pareciam ser longos, as noites curtas, tamanha era a vontade de dormir, as brincadeiras rendiam e só se rendiam ao cansaço, algo difícil de atingir. À noite, depois do jantar, havia ainda tempo para ir até aos bombeiros ou à casa do povo para jogar ping-pong, ao bilhar, ao jogo da glória, ao dominó ou às damas. Era preciso pelo menos um adversário, o que não era problema, o mais complicado era arranjar mesa, fosse a do bilhar, a do ténis de mesa ou as ditas normais para os outros jogos. Mas se fosse um pouco mais cedo não tinha grande dificuldade. 
Alguns de nós continuavam a estudar, outros, não, trabalhavam, mas havia um sentido de irmandade que a descriminação de acesso aos estudos nunca obstruiu, nem na altura nem ainda hoje passados tantos anos.
Um dos meus parceiros do jogo de damas, a quem ganhava quase sempre, o que me dava uma satisfação enorme, tinha o seu estilo próprio, um vozeirão do caraças e uma humildade que dava para enriquecer algumas centenas de gajos dos tempos atuais. Origem mais do que modesta, pobre, como era habitual, trabalhava como moço de recados de alguém altamente respeitado e considerado. Cedo se apercebeu da importância das palavras e das frases, muitas das quais não conhecia o sentido. Seduzido pela sonoridade e pelo impacto que lhe deviam provocar no seu cérebro, criado e moldado na pobreza de então, fazia esforços para as decorar e decifrar. Quase todos os dias me dizia uma ou duas palavras novas com as quais queria compensar a derrota às damas. Como quem diz, tu sabes qual é o significado? Eu tentava e muitas delas não me causavam quaisquer problemas. Tornou-se um segundo jogo em que acabava, também, por "perder". Um dia comunicou-me que tinha comprado um dicionário. -É para saberes o significado das palavras que vais ouvindo?- É, e também para aprender palavras difíceis. -Palavras difíceis?! Explica lá melhor. - Ando a decorar palavras difíceis. - A decorar palavras difíceis? Mas para quê? - Porque é muito útil. As pessoas importantes que conheço só usam palavras muito complicadas. - Mas tu sabes utilizá-las? - Qual é o problema? O que eu quero é ser importante, porque os senhores doutores e os senhores juízes só usam palavras difíceis. - Oh, deixa-te disso. Não sejas parvo. - O que tu tens é medo de as não compreenderes! - Vais ver logo. Quero ver se sabes o significado de algumas palavras que vou levar. - Está bem! Leva o que quiseres. Mas vai-te preparando para levares mais uma abada no jogo das damas.
Sempre que o vejo, a andar vergado, como se fosse uma carroça de eixos enferrujados, tisnado com uma coloração amarelada a fugir para o escuro, inventando passos muito curtos, com um olhar vago como se estivesse à procura de um dicionário perdido na sua imaginação possuída pela doença, com um cigarro pendurado nos lábios engrossados pelo tempo e pela medicação, revivo com ternura os momentos em que conseguia ganhar com facilidade ao jogo das damas e ao jogo das palavras difíceis. 
Como o tempo muda as pessoas, mas não muda a essência das almas. Não perdeu a humildade nem o respeito. Há coisas que nem a idade, nem a doença e nem o infortúnio conseguem apagar....